A chave certa

Como normalmente corro de manhã bem cedinho (6h30 já estou na pista), saio de casa antes de o meu irmão acordar. Por conta disso, levo a chave da cozinha comigo.

Hoje, quando voltei da corrida, tentei abrir a porta e não consegui. Tentei mais uma vez e nada. Até que levantei os olhos e percebi que estava tentando abrir a porta da sala com a chave da cozinha.

Enquanto caminhava para a porta certa, fiquei pensando no tanto que fazemos isso sem perceber no nosso dia a dia. Usando as chaves erradas, tentamos abrir algumas portas. E quando isso não acontece, nos frustramos e, muitas vezes, usamos de força para arrombar as portas que acreditamos emperradas.

Nos nossos relacionamentos, ao invés de usarmos a chave da tolerância, usamos a chave do “todo mundo tem que agir como eu”. Nos nossos sonhos, ao invés da chave da persistência, usamos a chave do “se não for agora não serve”. Conosco mesmos, ao invés da chave da aceitação, usamos a chave do “eu deveria ser assim”.

Chave errada não abre a porta. Por mais que ela esteja ali, à nossa frente, pronta para ser aberta, se não trocarmos a chave, ela não se abrirá.

Claro que existe a possibilidade de arrombá-la, de chamar o chaveiro, de usar um clips e por aí vai. Mas é sempre bom lembrar que quando não usamos a chave certa, a porta fica sempre aberta. Não há como fechá-la atrás de nós. Ou seja, o que há lá dentro pode escapar ou o que está de fora pode sem convite entrar.

No dia de hoje, pense nas portas que você deseja abrir. Depois, olhe para as suas mãos e veja se você já tem as chaves certas. Se não, corra atrás para consegui-las. Mesmo que demore um pouco é melhor poupar a porta e o trinco do que deixar a vida toda escancarada. Toda cheia de portas arrebentadas!

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Toc, toc, toc

Mudar é preciso. Esse é um fato inegável que, vez por outra, nos assombra. Pequena ou grande, não importa. De tempos em tempos a mudança bate à porta e fica ali, martelando, incomodando.

Muitos preferem fingir que não há ninguém à porta. As batidas estão lá, segundo após segundo, mas os ouvidos teimam em fazer de conta que nada está acontecendo. Os dias passam, os meses passam, e a necessidade daquela mudança caduca. Dando espaço a outras que vão surgindo, uma após outra.

Mas não se engane. Apesar de caducar, essa necessidade bateu tanto, mas tanto à porta, que deixou ali sua marca. Marca que nem os anos apagam. Marca que se carrega pra sempre, como um lembrete: a necessidade de mudança passou por aqui. E você passou por ela.

Além de preciso, mudar é parte indissociável do crescimento. Você cresce porque muda e também muda porque cresce. Fugir das mudanças ou mesmo ignorá-las é, de certa forma, negar-se a crescer. E convenhamos, Peter Pan só tem graça no mundo da Disney World.

Claro que aceitar a mudança não é um processo simples. Assim como crescer também não o é. Mas apenas abrir a porta pra que ela entre em casa não significa que a mudança está completa. É preciso abrir a porta, convidá-la a entrar e dar espaço para que ela faça as alterações que se fizerem necessárias.

E isso, claro, nunca é simples. Implica em aceitar que coisas que estavam ali, há anos, simplesmente sejam lançadas fora. Significa, muitas vezes, tirar a mobília de lugar, arrastando todos os móveis. Significa encarar sujeiras que lançamos debaixo do tapete e faxinas que deixamos de fazer. Significa, enfim, ver a casa de pernas pro ar e, tantas vezes, não poder fazer nada a não ser esperar até que tudo se normalize.

Porque geralmente é isso o que acontece: uma mudança, por menor que seja, implica em alterações que nos desestabilizam. Só que é esse aparente desequilíbrio que nos permite trabalhar áreas que muitas vezes estavam escondidinhas, guardadinhas e que, sem a mudança, jamais seriam notadas.

Assim, quando a mudança bater, abra a porta com um sorriso no rosto. Por mais que o caos tenha chegado à sua casa, uma oportunidade única de crescer e se desenvolver acaba de chegar também!

Pesadelos

Tem dias em que mal abro a porta
E eles, sem qualquer cerimônia, entram casa adentro
Vão se instalando por todos os cômodos
E me enchendo de pequenos e grandes receios
Medo do dia e daquilo que virá
Medo também do que não virará
Medo dos olhares tortos
E dos sorrisos tortos
Medo da falta de sorriso
Medo do que eu penso dos outros
Medo do que os outros pensam que eu penso
Medo de tudo o que tenho que fazer
Medo de não ter o que fazer
Medo do fazer pra ter
Medo de ter medo
E medo do próprio medo

Só que tem outros dias
Em que a porta permanece fechada
E eles ficam lá foram
Tremendo de medo
Medo de eu descobrir que posso espantá-los
Medo de eu entender que posso detê-los
Medo de perceber que posso viver sem eles
Medo de imaginar que consigo vencê-los
Medo de que meus olhos se abram
E que, de uma hora pra outra, eu simplesmente descubra
Que eles só existem nos meus pesadelos!