Prolongando o mal

Ontem, enquanto voltava da oficina à pé pra agência (deixei meu carro para uma pequena revisão), fiquei ruminando o texto a respeito da procrastinação. Talvez porque esse seja um tema que fale tanto comigo e porque seja algo que estou trabalhando em minha vida, resolvi pensar um pouco mais a esse respeito. E Mateus 6.34 me veio à mente nesse momento:

“Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”.

Inicialmente, parece que o texto não fala nada sobre procrastinação. Mas quando me atentei para a última parte do versículo, vi que eu estava enganada.

Basta a cada dia o seu mal. 
Quando procrastino, trago o mal de ontem, ou o problema de ontem, ou a tarefa de ontem, pra hoje. Ou seja, eu simplesmente prolongo o mal por minha livre e espontânea vontade.

Não é estranho isso? Mas por mais estranho que pareça, ao invés de nos desfazermos dos afazeres, vamos nos atolando neles, vamos nos prendendo a eles e acabamos vivendo uma vida extremamente inquieta. E, no final das contas, a ansiedade sobe a níveis alarmantes.

Porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Quando procrastino, impeço que o dia de amanhã cuide de si. Afinal, ele tem que cuidar do que foi deixado pelo ontem, pelo anteontem e por aí vai. E a vida vai ficando cada vez mais pesada, mais carregada.

“(…) deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta” 
(Hebreus 12:1)

Fica fácil entender porque a vida, tantas vezes, fica pesada e quase não conseguimos avançar, né? Porque vamos carregando os pesos de ontem, de anteontem, às vezes de uma semana inteira, quando simplesmente poderíamos tê-los resolvidos e prosseguir caminhando sem eles.

Que tal resolver o mal de hoje no dia de hoje e viver o amanhã com mais leveza? Basta a cada dia o seu mal!

***

Depois do texto de ontem, a Caty escreveu um post bem bacana também sobre procrastinação. Indico demais!

Leo Babauta, do Zen Habits, escreveu vários posts sobre procrastinação, com dicas para vencer a danada. Aqui vai o link com os posts: https://www.google.com/search?q=site%3Azenhabits.net+procrastination&qfront=procrastination

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A hora dos pequenos

“O mundo é um lugar perigoso de se viver não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer”. (Albert Einstein)

Recebi a frase acima em um email, semana passada. E ela ficou fazendo eco no meu coração durante todo o tempo. Talvez, porque, de certo modo, ela me faça lembrar outra frase que a esquerda brasileira usou muito durante os tempos da ditadura (e que meu pai fez questão de nos ensinar): os grandes só continuam grandes porque os pequenos continuam de joelhos.

Ou seja, o grande problema do mundo em que vivemos não é necessariamente o mal. O grande problema do mundo em que vivemos é a nossa atitude diante do mal. O que fazemos diante do que acontece à nossa volta é mais determinante do que o acontecimento em si.

Antes que você imagine as pobres criancinhas africanas passando fome num país longínquo e distante, milhares de pessoas sendo tratadas como escravas em países asiáticos e outras tantas calamidades lá do outro lado do mundo, proponho um exercício um pouco diferente. Pense no mal que acomete o seu mundo, a sua esfera de relacionamento e influência.

Sim, pense na copeira do seu trabalho que muitas vezes é mal tratada por aquele colega sem noção. Pense no porteiro do seu prédio que é obrigado a lidar com adolescentes sem qualquer educação. Pense nas pessoas à sua volta que, desiludidas, simplesmente deixaram de sonhar e não vivem mais. Apenas sobrevivem.

É desse mal que quero falar. Porque o mal que acomete as crianças africanas, os trabalhadores escravos asiáticos, infelizmente é um mal que não está, ao menos nesse momento, ao seu alcance aplacar. Mas o mal que o cerca, o mal que cerca as pessoas à sua volta e da sua convivência, esse sim é de sua inteira responsabilidade.

O que você tem feito em relação às pequenas atrocidades que acontecem no seu dia a dia? O que você tem feito em relação às pequenas atrocidades que você mesmo comete no seu dia a dia? Sim, porque não estamos isentos de cometê-las e precisamos, em todo o tempo, nos policiar para que não sejamos agentes (mesmo que indesejadamente) das mesmas.

Volto a repetir. O problema do mundo não é simplesmente o mal que vemos nele. É a nossa reação diante desse mal. Ok, você pode dizer, mas o que efetivamente se pode fazer? Em primeiro lugar, treine-se para nunca se acostumar. Não se acostume com falta de educação, falta de gentileza, com os pequenos males que te cercam. Depois, permita que a indignação que brota diante deles o faça agir de alguma forma. E não se preocupe se sentir que deu apenas um pequeno passo. Grandes caminhadas (e olha que disso eu posso falar!) começam com pequenos passos.

E nunca se esqueça: se sentir pequeno demais diante dessa grande tarefa, dê uma olhada para baixo. Talvez você perceba que esteve o tempo todo de joelhos!