Surpreenda-se

surprise

É possível que você passe todos os dias pelo mesmo caminho, que você converse sempre com as mesmas pessoas, faça as mesmas coisas, coma as mesmas comidas. É possível que você viva um dia exatamente como o outro, uma hora passando como a anterior, os momentos simplesmente acontecendo uns após os outros. É possível que sua vida seja uma rotina sem fim, um amontoado de coisas semelhantes se sucedendo, de atitudes praticamente idênticas sendo tomadas. Sim, é possível.

Assim como também é possível que em meio ao caminho de sempre você veja algo diferente, que em meio à conversa de sempre você ouça algo pouco familiar e que, ao comer a comida de sempre, você se surpreenda com um novo sabor. Também é possível que aquele dia que tinha tudo pra ser igual ao anterior simplesmente apresente uma cor diferente, aquela hora exale um perfume especial e os momentos sejam surpreendentes. Também é possível que naquela rotina sem fim algo chame sua atenção, trazendo coisas diferentes e impulsionando atitudes que surpreendam. Sim, também é possível.

E o que faz uma possibilidade diferente da outra? Seus olhos, seus ouvidos, seu coração. Se você tiver olhos que vêem, ouvidos que ouvem e um coração que sente, as coisas de sempre viram coisas surpreendentes.

O problema é que a gente tem olhos que não vêem, ouvidos que não ouvem e um coração que não sente. Sim, eles cumprem seu papel funcional, metabólico. Eles estão ali, piscando, retendo ondas sonoras, batendo. Mas apenas isso. Nós os fechamos para as possibilidades e reclamamos de viver sempre mais do mesmo.

Acredite: a vida pode ser surpreendente. Na verdade, ela é. Basta que você preste bastante atenção em uma criança perto de você. Ela enxerga o mundo com olhos de curiosidade, ouve os sons com ouvidos de surpresa, sente a vida com aquele desejo de quero mais. Não à toa, é preciso ser como criança.

Abra os olhos para as cores, para a beleza, para  a simplicidade. Abra os ouvidos para a melodia, para os sorrisos, para os cochichos. Abra o coração para aquele que está perto de você e o convide a fazer o mesmo. Abra-se para a vida e surpreenda-se.

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A ponte

bridge
O coração apertava e a respiração, ofegante, deixava claro que todo o corpo acompanhava a angústia da alma. Sabia o que precisava ser feito, apenas não tinha coragem de admiti-lo pra si mesma. Durante semanas vinha lutando contra o inevitável e, face às respostas que encontrava pelo caminho, sabia que a hora se aproximava. Repetia pra si mesma que não conseguiria, que seria complicado, que seria difícil, que seria pesado. A verdade era que já se acostumara a se arrastar com aqueles enormes pesos. Tinha medo de simplesmente deixá-los pelo caminho e seguir. Eles já faziam parte dela e daquilo que ela fazia todos os dias. Só que ela sabia que não duraria pra sempre e que cabia a ela mesma livrar-se daquilo que a prendia. E se o que a prendia fosse o que mais amasse? E se o que a prendia fosse o que mais estimasse? Ela jamais saberia se não cruzasse a ponte e se libertasse. Tomou coragem, tomou fòlego e se jogou. Ao contrário do que pensou, ela não caiu. Mas também não caminhou. Simplesmente, flutuoou.

O nome da lágrima

tears
Tem hora que não adianta respirar fundo, não adianta tentar pensar em outra coisa, não adianta racionalizar. Também não adianta pensar que vai passar, não adianta querer adiar, não adianta tentar aliviar. As lágrimas são seres independentes e autônomos. Quando a gente menos percebe, elas jorram pelos olhos.

O mais interessante é observar que elas tem nome. As minhas, nos últimos dias, chamam-se saudade. E elas também tem sobrenome, eu descobri. Saudade dos amigos, saudade da família, saudade do cheiro, saudade da comida, saudade de entender e saudade de ser entendida.

E lágrimas com nome e sobrenome são mais pesadas, densas. Elas não escorrem simplesmente. Elas ficam impregnadas dentro da gente, encharcando o coração, embargando a voz, fazendo flutuar as emoções. Exatamente por isso, elas nunca se vão. Estão sempre escondidas, à espreita, esperando para novamente vir à tona.

A sensação que tenho é que cada vez que desaguam se tornam mais fortes. Num primeiro momento, apenas um fio dágua. Num outro, pequeno riacho. Mais à frente, rio caudaloso. Por fim, mar aberto.

E é nisso que elas me transformaram: num mar aberto de lágrimas onde cada gota tem nome. E sobrenome. Saudade de alguém. Saudade de quem me quer bem.

Coitado coração

Tem dias que o coração acorda apertado
parece que passou a noite exprimido
sendo pisado, esmagado
coitado!

Tem dias que o coração acorda amassado
parece que passou a noite sendo dobrado,
dobrado e redobrado
coitado, coitado!

Tem dias que o coração acorda desanimado
parece que passou a noite sendo sugado
tendo todo o vigor dele retirado
coitado, coitado, coitado!

Tem dias que o coração acorda na mão
parece que passou a noite andando
e, cansado, foi parar no lugar mais inesperado
coitado, coitado, coitado, coitado!

Tem dias que o coração perde a cor
parece que passou a noite sendo desbotado
tendo todo o seu vermelho dele retirado
coitado, coitado, coitado, coitado, coitado!

Tem dias que o coração simplesmente se rebela
cansado de ser coitado
resolve reagir
aí, é melhor sair da frente
vem encrenca, ou melhor,
vem amor, vem paixão por aí!
Coitada de mim!

O drama

O grande drama da humanidade é saber o que deve ser feito mas não conseguir, efetivamente, fazê-lo. Não estou falando aqui de não querer. Porque tem vezes que a gente sabe o que deve fazer e simplesmente escolhe fazer o contrário. Não. Estou falando aqui de saber o que deve ser feito mas simplesmente não ter a capacidade de levar isso adiante.

A gente sabe que não deve sofrer por coisas mínimas, que não deve se deixar abalar, que deve seguir independente do que aconteça, independente das tristezas. Sabe que não deve deixar que uma pedra no meio do caminho atrapalhe a caminhada, sabe que precisa acreditar que amanhã será melhor. Mas simplesmente saber não resolve, não muda nada.

E é bem aqui que entra uma das frases mais realistas que já ouvi: a maior distância do mundo é a que existe entre a mente e o coração. Sábios são aqueles, então, que conseguem construir uma ponte entre a razão e a emoção. O que eu, efetivamente, estou bem longe de conseguir fazer.

Meu lugar

Um lugar pra andar descalça
e escutar a melhor canção
Um lugar pra rir de tudo
e simplesmente deitar no chão
Um lugar com um bom filme
e um bom prato, por que não?
Um lugar em que caibam os amigos
e uma roda de violão
Um lugar pra sentir o vento
e se encher de inspiração
Um lugar cheio de calma
bem longe da agitação
Um lugar pra descansar
e colocar em ordem o coração!

O domador

A cabeça procura um lugar
onde o coração não está
passeia por todas as direções
segue em todos os rumos
desvia-se de cheiros
evita as lembranças
mas, mesmo quando se cansa
consegue ouvir o danado do pulsar
corre, viaja
passeia por todas as direções
segue em todos os rumos
mas não há pouso seguro
em todos os lugares
lá está o coração
ditando sentimentos
sufocando a razão
exausta, a mente se rende
e resolve se entregar
não sem protestar, claro
mas o que se há de fazer
quando ele invade todos os lugares,
impondo sua presença?
O que se há de fazer
quando ele nada respeita
e se põe logo a se intrometer
em tudo o que se possa ver?
O jeito é mesmo se entregar
e se deixar, enfim, pelo coração domar.