Cada um no seu quadrado

Tá que o título desse post não é assim o mais original e nem mesmo o mais engraçadinho, mas foi o que consegui pensar pra exemplificar algo que tenho vivido nesses últimos tempos de reeducação alimentar (e quiçá, de vida): as inevitáveis comparações.

Quando alguém descobre que tenho passado pelo processo de emagrecimento, a primeira pergunta que ouço é: quantos quilos você já perdeu? Quando dou a resposta (cerca de 35kg), a cara de espanto é geral. E, mesmo que o questionador em questão não tenha nenhuma grama a perder, a segunda pergunta também flui naturalmente: como?

E lá vou eu dizer que fechando a boca e correndo, que não há segredo, que é preciso fazer o que estamos carecas de saber e todo um blá blá blá blá que já sai no automático. Mas geralmente a conversa não para por aqui. A pessoa continua avançando: mas o que você normalmente come? Quantas vezes se exercita por dia? E a inevitável: quantos quilos você perde por semana, por mês?

Não me canso em responder essas perguntas e nenhuma outra, que fique claro. Emagrecer sem remédio e sem cirurgia bariátrica, nos nossos dias, é sim nadar contra corrente. O que me cansa, e me entristece, é perceber que, depois de conversar comigo e muitas vezes de se encher de coragem pra começar uma reeducação alimentar, meu interlocutor cai no erro de todos os outros: o da comparação pura e simples.

Porque eu emagreço mais de 2kg por semana (na maior parte do tempo), lá vai a pessoa acreditando que isso acontecerá com ela. Porque eu corro e nunca tive problemas nos joelhos, lá vai o outro acreditando que tudo será exatamente igual com ele. Porque a academia fez toda a diferença nessa minha caminhada, lá vai a pessoa correndo fazer matrícula.

E se esquece de suas particularidades, de suas individualidades. Perco mais de 2kg por semana porque ainda tenho muito peso a perder. Quanto mais emagreço de maneira geral, menos emagreço por semana. Não tive problemas no joelho porque passei cerca de um ano fortalecendo minha musculatura antes de me arriscar nas corridas. E a academia fez toda a diferença na minha vida porque tive condições de contratar um personal. Sem ele, acredito eu, a academia não teria assim tanto impacto.

Claro que esse é um fenômeno que reflete o que vivemos de maneira geral. A gente tende a balizar nossas experiências pelas vivências do outro. Mas, creio eu, esse processo é importante até determinado ponto da vida. A partir daí, passa a ser bastante perigoso. Afinal, o que eu sou depende de mim e das minhas escolhas. Não das escolhas do outro.

Ter alguém como inspiração é fantástico. Mas é preciso entender que cada um de nós carrega dentro de si seu próprio universo. Com seus planetas, suas constelações, seus buracos negros. E, por sermos únicos e tão singulares, nem sempre o que coloca ordem no universo do outro faz o mesmo no meu próprio. Às vezes, pode fazer exatamente o contrário, desequilibrando toda a ordem e antecipando o caos.

É como eu disse, comparações podem até ser parte da vida. Mas não devem, de maneira alguma, ser aquilo que a dita!

Toc, toc, toc

Mudar é preciso. Esse é um fato inegável que, vez por outra, nos assombra. Pequena ou grande, não importa. De tempos em tempos a mudança bate à porta e fica ali, martelando, incomodando.

Muitos preferem fingir que não há ninguém à porta. As batidas estão lá, segundo após segundo, mas os ouvidos teimam em fazer de conta que nada está acontecendo. Os dias passam, os meses passam, e a necessidade daquela mudança caduca. Dando espaço a outras que vão surgindo, uma após outra.

Mas não se engane. Apesar de caducar, essa necessidade bateu tanto, mas tanto à porta, que deixou ali sua marca. Marca que nem os anos apagam. Marca que se carrega pra sempre, como um lembrete: a necessidade de mudança passou por aqui. E você passou por ela.

Além de preciso, mudar é parte indissociável do crescimento. Você cresce porque muda e também muda porque cresce. Fugir das mudanças ou mesmo ignorá-las é, de certa forma, negar-se a crescer. E convenhamos, Peter Pan só tem graça no mundo da Disney World.

Claro que aceitar a mudança não é um processo simples. Assim como crescer também não o é. Mas apenas abrir a porta pra que ela entre em casa não significa que a mudança está completa. É preciso abrir a porta, convidá-la a entrar e dar espaço para que ela faça as alterações que se fizerem necessárias.

E isso, claro, nunca é simples. Implica em aceitar que coisas que estavam ali, há anos, simplesmente sejam lançadas fora. Significa, muitas vezes, tirar a mobília de lugar, arrastando todos os móveis. Significa encarar sujeiras que lançamos debaixo do tapete e faxinas que deixamos de fazer. Significa, enfim, ver a casa de pernas pro ar e, tantas vezes, não poder fazer nada a não ser esperar até que tudo se normalize.

Porque geralmente é isso o que acontece: uma mudança, por menor que seja, implica em alterações que nos desestabilizam. Só que é esse aparente desequilíbrio que nos permite trabalhar áreas que muitas vezes estavam escondidinhas, guardadinhas e que, sem a mudança, jamais seriam notadas.

Assim, quando a mudança bater, abra a porta com um sorriso no rosto. Por mais que o caos tenha chegado à sua casa, uma oportunidade única de crescer e se desenvolver acaba de chegar também!

Descarrilada

Pois bem. O fato é que esse trem que atende pelo nome de Renata Cabral Vicente simplesmente descarrilou. E não foi apenas em parte. Foi completamente. Não temos apenas a locomotiva fora dos trilhos. Temos todos os vagões fora deles também. Não há nada, repito, nada, que tenha permanecido sob o trajeto original. Há vagões jogados por todos os lados e ainda estou em busca da locomotiva perdida.

E, por mais que reine o caos, ando pensando seriamente que talvez esse seja um bom momento para rever os trilhos sobre os quais tenho andado. E o caminho para onde eles me levarão. Ou seja, tenho enxergado no descarrilamento a oportunidade perfeita para rever a minha rota.

Aonde quero chegar? O que realmente pretendo fazer? Será que é isso mesmo que quero pra mim? Essas são apenas algumas perguntas que pretendo responder antes de colocar toda a parafernália de volta pra andar. Claro que algumas certezas eu tenho. Mas até elas ando me dando o direito de questionar. Porque, afinal, se é pra mudar, que não fique trilho sobre trilho!