O que te define?

who you are

Algumas pessoas se deixam definir por aquilo que falam delas. Outras se deixam definir exatamente por aquilo que não falam. Tem aquelas que são definidas pelos números mostrados na balança, na calça jeans e na camisa. Tem também quem se define por aquilo que tem, enquanto outros se deixam definir exatamente por aquilo que não tem. Sem contar aqueles que deixam sua definição nas mãos da TV, dos jornais, das revistas, das redes sociais. 

Tem gente que se define por suas limitações. Tem outros que são definidos pelos seus problemas. Tem também aqueles que são definidos por marcas do passado ou mesmo do presente. Tem gente que se define por onde veio, por sua família, por suas origens ou falta delas. Tem gente que se define por suas emoções – muitas vezes negativas – em relação a tudo. Enfim, tem muita gente que se deixa definir pelos outros, pelas circunstâncias ou simplesmente por aquilo que vem de fora.

Só que eu preciso te contar um segredo: você não precisa se deixar definir por nada disso. Basta que você decida conscientemente o que te define. Se você decidir que não é a sua aparência que te define, que não é o que você tem que te define, se você decidir que o que te define é quem você é de verdade, tudo muda!

Parece clichê, parece livro de autoajuda, parece mais um textinho motivacional? Sim, parece! Mas quando você assistir ao vídeo abaixo você vai finalmente entender que você tem sim escolha. Você pode escolher ser definido pelo que os outros dizem ou pelo que você é. Você pode escolher ser definido pelo que a balança diz e pelo que você é. E a minha torcida é que você tenha a coragem pra escolher ser definido por quem você é de verdade!

E aí, o que você vai deixar que defina você?

***

Post sugerido, há muito tempo atrás, pela Lenir. Brigada pela dica, sis! 😉

Gritos

Era implacável. Organizava bingos em prol das velhinhas do bairro. Arrecadava roupas usadas para os menos favorecidos. Era uma defensora dos animais. Não havia criança que não conhecesse a sua generosidade. Era do tipo dos grandes gestos, dos grandes amores, das grandes paixões.

Mas algo gritava quando poucos estavam vendo (e ouvindo). Era ali, nas miudezas, que se revelava. Era extremamente agressiva com aqueles que lhe eram “inferiores” no trabalho. Era deselegante quando achava que seu ponto de vista era o mais importante. Ela estava certa, sempre certa. E o mundo, claro, andava todo ao contrário.

E sua vida era vivida em prol disso: consertá-lo. As mazelas sociais deveriam ser extirpadas. As desigualdades com ela desapareceriam. Todos seriam felizes, alimentados, vestidos. Menos aqueles que conviviam com ela mais de perto. Porque esses a conheciam sem as belas palavras. Esses a conheciam sem as roupas de boa moça. Sem a aparência de bondade.

E era tudo tão incoerente, tudo tão discrepante, que no trabalho ninguém podia imaginar quem ela era no dia a dia. E no dia a dia, ninguém acreditaria se dissessem o que ela realmente fazia.

Vivia a vida assim: entre sussurros e gritos. Entre grandes gestos e quase invisíveis mesquinharias. Entre quem fazia de conta e quem realmente era. Entre a aparência e a essência que, por mais que tentasse sufocar, sempre vinha à tona para assombrá-la.

Fora do balaio ou um poeminha pra esse dia

Somos mães, esposas, filhas.
Somos namoradas, amigas.
Ou não.
Somos simples solteiras convictas.
Somos magras, gostosas.
Somos gordas apetitosas.
Não estamos nem aí pra aparência.
Ou não.
Não estamos nem aí pra essência.
Queremos colo, dengo.
Queremos chamego.
Ou não.
Queremos distância.
Respeito ao nosso espaço.
Se ele é invadido, não espere um mínimo de tolerância.
Somos o que queremos ser.
Ou não.
Somos o que querem que sejamos.
Com os cabelos arrumados.
O corpo ajeitado.
O terno bem passado.
A imagem do sucesso.
Ou não.
Somos um verdadeiro fracasso.
Com o coração aos pedaços.
A mente em frangalhos.
E o corpo em retalhos.
Ou não.
Mulherzinha. Mulherão.
Não importa.
Somos simplesmente humanas.
Com defeitos, qualidades.
Com sonhos, medos.
Então, não nos coloque em um balaio.
Porque somos muitas e únicas.
E qualquer que seja o balaio, com certeza ele não nos comporta.

A velha

Olhou-se no espelho e não se reconheceu. Exatamente como há 10 anos, quando começaram as plásticas. Naquela época, porém, as rugas tampavam o rosto que ela pensava ser o dela. Hoje, a falta delas simplesmente abre um semblante que ela não mais reconhece como seu.

Pequenas intervenções, dizia tentando convencer-se. Uma esticadinha aqui, outra ali. E lá se foram todas as marcas e com ela as lembranças dos momentos que as trouxeram à tona.

Nossa, como você está jovem, repetiam os amigos. Ah, quando eu tiver a sua idade, quero estar enxuta como você, diziam as venenosas amigas. E entre os elogios, ela simplesmente se perdia numa tentativa desesperada de encontrar-se.

Até aquele momento. Quando, num raro instante de lucidez, entendeu o inevitável: por mais que passasse o rosto a ferro, sua alma estava invariavelmente amassada. As rugas de fora se tornaram inexistentes, mas a de dentro clamavam cada vez que se olhava no espelho.

Velha, repetiu baixinho. Velha, outra vez. Velha. Velha. Velha. Até que a rua inteira conseguiu ouvi-la gritar a plenos pulmões: velha!

Lágrimas correram-lhe pelo rosto e, sem encontrar qualquer barreira natural, rapidamente empoçaram-se no chão. Sentou-se em meio a elas sem parar de repetir: velha. Teve a sensação de que iria afogar-se em tamanha dor, mas estava errada. Depois do choro, um riso descontrolado tomou conta do cômodo: velha. Velha, velha.

A palavra que antes a amedrontava, agora, pouco a pouco, a libertava. Velha. Velha, era isso o que ela era. Levantou-se e foi até o armário. Repetindo a palavra mágica, velha, foi arrancando de lá tudo o que não condizia com sua situação. Durante anos tentara fugir da palavra. Agora, finalmente, ela a encontrara.

Pilhas e mais pilhas ficaram espalhadas pelo chão. Teve a certeza de que não haveria nada ali que servisse para a sua nova condição, velha. Precisava urgentemente paramentar-se para esse novo momento. Usando apenas o roupão, desceu as escadas e tomou a rua. Enquanto um passante chamou-a de louca, ela simplesmente virou-se e disse:

– Louca, não! Velha!

Sorriu. Era a primeira vez em anos que se encontrava consigo mesma. Não aquela que vira no espelho. Mas aquela amarrotada, que habitava dentro dela. E, por mais que fosse estranho admitir para si mesma, gostara do que vira: uma velha, enfim!

***

Esse conto surgiu após a leitura desse texto aqui: Me chamem de velha, que eu sinceramente recomendo.