O nome da lágrima

tears
Tem hora que não adianta respirar fundo, não adianta tentar pensar em outra coisa, não adianta racionalizar. Também não adianta pensar que vai passar, não adianta querer adiar, não adianta tentar aliviar. As lágrimas são seres independentes e autônomos. Quando a gente menos percebe, elas jorram pelos olhos.

O mais interessante é observar que elas tem nome. As minhas, nos últimos dias, chamam-se saudade. E elas também tem sobrenome, eu descobri. Saudade dos amigos, saudade da família, saudade do cheiro, saudade da comida, saudade de entender e saudade de ser entendida.

E lágrimas com nome e sobrenome são mais pesadas, densas. Elas não escorrem simplesmente. Elas ficam impregnadas dentro da gente, encharcando o coração, embargando a voz, fazendo flutuar as emoções. Exatamente por isso, elas nunca se vão. Estão sempre escondidas, à espreita, esperando para novamente vir à tona.

A sensação que tenho é que cada vez que desaguam se tornam mais fortes. Num primeiro momento, apenas um fio dágua. Num outro, pequeno riacho. Mais à frente, rio caudaloso. Por fim, mar aberto.

E é nisso que elas me transformaram: num mar aberto de lágrimas onde cada gota tem nome. E sobrenome. Saudade de alguém. Saudade de quem me quer bem.

Foco, força e fé

Não adianta ficar de mimimi ou mesmo tentar enganar os outros. A você mesmo, por mais que você tente de todas as formas, você não engana. E você está careca de saber que, pra que o resultado venha, é preciso se esforçar, é preciso despender energia, tempo, empenho. É preciso colocar um pouquinho de você naquilo que você vai fazer.

Pra tentar fugir do assunto ou mesmo pra justificar a desistência, você diz que tentou de tudo. Será mesmo? Será que todas as possibilidades se esgotaram e você realmente não conseguiu? Ou foi mais cômodo abrir mão daquilo que você desejava e partir pra outro desejo mais simples, digamos assim?

Você sabe bem que quando você foca, quando você se empenha, você consegue. Consegue melhorar seus relacionamentos, consegue crescer como pessoa, consegue avançar. Basta você deixar o que não importa de lado, esquecer as outras vozes e ouvir apenas aquela que, lá no fundo, diz o óbvio: você nasceu pra brilhar.

Focado, você arranja forças sabe-se lá de onde pra fazer o que for preciso. Pra correr mais um quilômetro, pra ir à festa infantil e não comer nenhum doce, pra se calar quando a vontade era xingar. Pra cuidar mais de você, pra estudar pro tão sonhado concurso, pra aprender aquele idioma tão difícil. Focado, você, alguém assim como tantos outros alguéns, consegue sair do ordinário e realizar o extraordinário. Focado, você finalmente descobre que você tem asas e que foi feito pra voar.

Tendo asas, você as abre e percebe que, com fé, elas podem te levar aonde você quiser. E aquele que antes pensava em desistir, descobre agora que tem muitos outros lugares para ir. Que tem um céu imenso a ser explorado, cheio de novas possibilidades a serem conquistadas!

***

Sim, este post é pra mim! Um pequeno lembrete pra que eu me lembre sempre que com foco, força e fé, posso ir muito além – brilhando e voando! E se eu posso, acredite, você também pode! 😉

Do amor e outros demônios

Terminei, ontem à noite, de ler “Sonhei que a neve fervia”, da Fal Azevedo. Vale dizer que, no final do livro, mal enxergava as letras nele impressas. Isso porque as lágrimas, muitas, não paravam de rolar. Sim, sou dessas pessoas que se acabam de chorar durante a leitura, o que também aconteceu com a “A menina que roubava livros” (uma grata surpresa, já que o achei extremamente chato até mais da metade).

Voltando ao livro da Fal, o título de uma obra de Gabriel García Márquez o resume perfeitamente. Ele trata do “Amor e outros demônios“. Fala do ano que se sucedeu à morte do marido da autora. Mas não um marido qualquer, digamos assim. Alguém que viveu 8 intensos anos com ela, que viveu para ela. Alguém pra quem ela também viveu. Alguém que a completava de todas as formas possíveis e imagináveis e, que num dia de agosto de 2007, se foi inesperadamente.

A partir daí, vemos o desenrolar (ou não) da vida dela sendo retratado no livro. Como um diário escrito pra ele, o marido, o livro conta das miudezas, dos sentimentos, das angústias, das tristezas. E, claro, da dor. E que dor. Uma dor que não passa nunca. Uma dor que aparece na forma de outras dores (de ouvido, no corpo). Uma dor que a assombra. Uma dor que, como diz o título do García Márquez, é sim como um outro demônio, que fica o tempo todo infernizando, literalmente, a vida da autora.

Só que preciso dizer que há algo no livro que me incomoda. E antes que alguém diga que é a falta de fé da autora, de esperança e tudo mais, digo que não. Não é isso. Ainda não sei exatamente o que é, mas talvez a , que também leu o livro, possa me dizer. Enfim, quando descobrir, conto aqui.

Sonhei que a neve fervia tem seu título retirado de uma música de Chico Buarque, Outros Sonhos. E, pra terminar o post, aqui fica a música pra, quem sabe, embalar a sua leitura! 😉

Sempre ele

Ele sempre me mostrou que o improvável não necessariamente significa impossível. Que a fé e  a razão não são distintas e sim complementares. Que a militância sindical e a espiritualidade podem ser faces da mesma moeda. Que a inteligência e a simplicidade, quando juntas, têm um poder agregador inimaginável. Que somos feitos de sonhos e realizações e que, se um andar sem o outro, seremos sempre seres capengas.

Ele sempre me ensinou que os livros têm um poder libertador incalculável. Que a vida é feita de poesia e que são os versos que enchem nossos dias de alegria. Ele me fez entender a força de um Pessoa, sem me esquecer do impacto de um Dom Helder Câmara. Pra ele, os grandes sempre foram os pequenos que um dia resolveram ficar em pé e lutar de igual pra igual com aqueles que os oprimiam.

Ele sempre me fez enxergar que um sorriso, muitas vezes, vale mais que mil palavras. Que às vezes vale a pena perder o amigo, mesmo que momentaneamente, pra não perder a piada. Que quando o choro aparece, é preciso trazer à memória aquilo que nos pode dar esperança. Que é preciso lembrar sempre que Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Ele sempre acreditou em mim. Na maior parte das vezes, bem mais do que eu mesma. Não há texto que eu envie pra ele que não volte com um elogio pra escritora favorita. Não há email que venha pela manhã sem um “bom dia flor do dia”.

Ele sempre esteve ao meu lado. Quando engordei horrores. Enquanto emagreço a conta-gotas. Quando venço a mim mesma. Quando me perco em mim mesma. Quando alcanço grandes vitórias. Quando me imponho qualquer derrota. Nas datas comemorativas. Nas datas sem qualquer importância.

Ele, sempre ele. Meu pai. Um pastor professor de física. Um evangélico petista. Um sonhador inveterado. Talvez, a pessoa mais inteligente que eu conheça. Com certeza, o ser humano mais fantástico com quem convivo. Alguém que me ensinou a amar as palavras e a entender o poder delas. E, exatamente por isso, no dia dele, faço uso delas, as palavras, pra dizer: pai, amo você!

E eu suspiro!

A pele que há em mim (Quando o dia entardeceu)
Márcia

Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu

E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo do meu
Uma trança arrancou
E o sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu

Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.

Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou.

Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei
Para lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
Para voltar a viver
Já não sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber.

Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada.
O quarto vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Quando enfim se cala