Sina

Num tempo em que a palavra empenhada valia mais que papel assinado, ninguém ousava questionar os motivos de um pai. Nem mesmo quando o filho, um guri que mal saíra dos cueiros, era castigado como um potro do mato. Não que ele não merecesse.

Desde muito pequeno, o moleque se mostrava indomável. Sua coragem e audácia eram tão grandes quanto sua força e pontaria. Fosse no estilingue, fosse na Flobé, fosse qualquer outro apetrecho que encontrasse, o alvo sempre era atingido. Na sede da fazenda, munições que ficassem ao alcance logo desapareciam, assim como o precoce atirador que só retornava trazendo algum troféu de caça. Os meninos da sua idade jamais o contrariavam, senão o cascudo resolvia. Com pouco mais de 13 anos, a maioria dos homens feitos dali pensaria duas vezes antes de desafiá-lo. Ao que se sabe, apenas seu pai o fazia abaixar os olhos inflamados de ousadia.

Desde que viera para essas redondezas pouco se sabia sobre o, perfumado e silencioso, pai do menino. Apenas que o sotaque de suas poucas palavras não era daquele sertão. Na cidade, só aparecia para buscar sua encomenda de perfume, sempre usado em exagero, que chegava religiosamente a cada dois meses. Também não desgrudava de seu Winchester, nem para dormir. Os poucos que conseguiram vislumbrar os detalhes de seu rifle, garantiam que era adornada por uma fortuna em moedas de ouro.

Hoje aquela cena pareceria brutal, mas era a garantia de que uma familia não se desfaria. Num dos mourões que cercava o quintal da sede, percebia-se, mesmo ao longe, um menino amarrado. Ninguém se aproximava, a não ser o próprio pai, trazendo um pouco de água e comida. A cena se repetiu por 5 longos dias, sem choro, sem lamentos, sem conselhos, sem palavras. Não se sabe ao certo, mas àquela época, dizem, um bando de cavaleiros desconhecidos passou uns dias na fazenda.

O grupo ficou acampado numa curva de rio, onde os homens descansaram, se lavaram e recuperaram os animais exauridos da jornada. Só tiveram contato com o dono e seu filho, ninguém mais. E assim como vieram, foram, sem aviso. Talvez, por isso, muitos duvidem.

Durante a estadia, o moleque não aparecia em casa nem para comer, tampouco para dormir. Parecia entre iguais. Parecia nascido do bando. Encantou-se com os enfeites nos cavalos, com as roupas cheias de medalhas, com o chapeu côco, com as alpercatas, com os punhais, e também, com o respeito que nutriam por seu pai. Tão encantado ficou que selou o cavalo e o levou para junto dos outros ornamentados. Percebendo o intento, seu pai se antecipou, conversou com aquele que parecia liderar o grupo e poucas palavras depois, o grupo se pôs estrada a fora. Não antes de se certificar que o menino estava, definitivamente, em casa. De outra maneira aquele pai não impediria seu único filho de seguir para a caatinga. Sozinho o impediu de avançar, amarrando-o firmemente. Depois de imobilizado, lhe disse algumas palavras ao pé do ouvido que lhe deixaram anestesiado:

– Tem gente que diz que eu sou cangaceiro.
– Tem gente que diz que eu sou chefe de bando.
– Tem gente que diz que eu sou um tal Luis Padre.
– Tem gente que diz que eu vim pra cá porque Padre Cícero mandou.
– Mas nessas verdades, nunca dirão que meu filhou morreu no cangaço nas mãos da volante.

(conto de Rodrigo Duarte)