A ponte

bridge
O coração apertava e a respiração, ofegante, deixava claro que todo o corpo acompanhava a angústia da alma. Sabia o que precisava ser feito, apenas não tinha coragem de admiti-lo pra si mesma. Durante semanas vinha lutando contra o inevitável e, face às respostas que encontrava pelo caminho, sabia que a hora se aproximava. Repetia pra si mesma que não conseguiria, que seria complicado, que seria difícil, que seria pesado. A verdade era que já se acostumara a se arrastar com aqueles enormes pesos. Tinha medo de simplesmente deixá-los pelo caminho e seguir. Eles já faziam parte dela e daquilo que ela fazia todos os dias. Só que ela sabia que não duraria pra sempre e que cabia a ela mesma livrar-se daquilo que a prendia. E se o que a prendia fosse o que mais amasse? E se o que a prendia fosse o que mais estimasse? Ela jamais saberia se não cruzasse a ponte e se libertasse. Tomou coragem, tomou fòlego e se jogou. Ao contrário do que pensou, ela não caiu. Mas também não caminhou. Simplesmente, flutuoou.

Gritos

Era implacável. Organizava bingos em prol das velhinhas do bairro. Arrecadava roupas usadas para os menos favorecidos. Era uma defensora dos animais. Não havia criança que não conhecesse a sua generosidade. Era do tipo dos grandes gestos, dos grandes amores, das grandes paixões.

Mas algo gritava quando poucos estavam vendo (e ouvindo). Era ali, nas miudezas, que se revelava. Era extremamente agressiva com aqueles que lhe eram “inferiores” no trabalho. Era deselegante quando achava que seu ponto de vista era o mais importante. Ela estava certa, sempre certa. E o mundo, claro, andava todo ao contrário.

E sua vida era vivida em prol disso: consertá-lo. As mazelas sociais deveriam ser extirpadas. As desigualdades com ela desapareceriam. Todos seriam felizes, alimentados, vestidos. Menos aqueles que conviviam com ela mais de perto. Porque esses a conheciam sem as belas palavras. Esses a conheciam sem as roupas de boa moça. Sem a aparência de bondade.

E era tudo tão incoerente, tudo tão discrepante, que no trabalho ninguém podia imaginar quem ela era no dia a dia. E no dia a dia, ninguém acreditaria se dissessem o que ela realmente fazia.

Vivia a vida assim: entre sussurros e gritos. Entre grandes gestos e quase invisíveis mesquinharias. Entre quem fazia de conta e quem realmente era. Entre a aparência e a essência que, por mais que tentasse sufocar, sempre vinha à tona para assombrá-la.

A teia

Tudo começa com uma pontada, para a qual você não dá a mínima bola. Com o passar do dia, você sente um beliscão – que simplesmente ignora. Algumas horas depois, algo torce dentro de você. Mas você luta. Não há de ser nada, repete pra si mesmo. O beliscão não está mais lá. Em seu lugar, diversos nós são dados. De tal forma amarrados que você se sente preso em você mesmo. Se sente sufocado. O ar começa a faltar à medida que os nós vão sendo apertados. E o que era apenas agonia se transforma em profundo desespero. Vai passar, você tenta se consolar. Em vão. Não há parte em você que não se consuma. Não há parte em você que não se repuxe com o amarrar da grande teia. Nela, seus sonhos vão sendo capturados. Nela, sua energia vai sendo mantida. Nela, sua esperança vai sendo perdida. Tomado, já anda prostrado. Consumido, se sente perdido. E a cada passo, a teia vai ficando ainda mais fechada. Até o ponto de se ver, por inteiro, nela amarrado. Ao final do dia, você não se reconhece. O que começou com uma pontada virou uma teia muito bem amarrada. Capaz de paralisá-lo. Capaz de sugá-lo e de fazer de você um servo, um vassalo, que a reconhece como senhora e, da sinhazinha ansiedade, passa a fazer todas as vontades!

Livres palavras

Na correria, não prestou atenção no que o corpo dizia. Não tinha tempo para frescuras, pensou. Não agora que precisava entregar aquele grande projeto e que as coisas não andavam muito bem na empresa. Continuou fazendo o que era preciso. Ou quase. Pulou todas as refeições possíveis e, quando chegou em casa, quase na manhã do outro dia, só conseguia pensar na cama. E foi lá que desabou.

Quando acordou, com o sol alto, não teve forças para se mexer. Pensou em gripe, escolheu exaustão. Era mais uma crise de estafa. Nada novo para a vida que levava. Só que dessa vez, percebeu algo diferente. Vermelhidão em algumas partes do corpo. De frente para o espelho, teve a sensação de que algumas das manchas tinham formas conhecidas. De que seria? De nada, repetiu pra si mesma. Mais uma vez sua cabeça lhe pregava peças.

Arrastando-se, conseguiu chegar ao trabalho. Pela cara dos colegas, sabia que não estava bem. Mas o que podia fazer? Era preciso produzir. Produzir era o seu lema. Percebeu que a coisa ia realmente mal quando seu chefe, ao vê-la, ordenou que procurasse imediatamente um médico. E que só aparecesse depois que estivesse bem. E bem de verdade.

Sabia que não havia necessidade pra tanto alarde. Em casa, ligou o computador e trabalhou o quanto pôde. Não seria uma doencinha que atrapalharia seu cronograma. Sem contar que as atividades continuariam lá quando ela voltasse. Assim, nada melhor do que adiantar o que pudesse. E foi o que fez. Até que os olhos começaram a embaçar e, por segundos, ela teve a sensação de que delirava. E via por todo o seu corpo escritas palavras.

Coçou os olhos. Era cansaço, era estafa. Enfim, não era nada. De qualquer forma, achou melhor não abusar. Deitou-se. Mas não conseguia dormir. Sentia o corpo formigar. Sentia o corpo coçar. E quando deu por si, em sua pele dançavam palavras.

Não, aquilo não era real. Não, aquilo não estava realmente acontecendo. Era preciso agir e rápido. E a melhor solução não estava num clínico geral. Estava mesmo em um bom psiquiatra. Porque além de cansada, agora estava louca.

Irrompeu no consultório, assustando médico e paciente. Sem delongas, expulsou a moça que, no divã, ainda contava suas mazelas. Sentia muito, mas seu caso era grave e urgente. Que voltasse depois. Antes que o médico pudesse dizer qualquer coisa, foi logo tirando a roupa. E mostrando o que acreditava serem ilusões.

Ele sorriu. Também as enxergava. Também podia vê-las. E elas, as palavras, dançavam por todo o corpo dela. Após observar, por alguns minutos, o espetáculo, ele anunciou: Síndrome da Palavra Reprimida.

Síndrome da Palavra Reprimida? Que diabos seria aquilo? Ou melhor: remédio. Que remédio tomar? Pacientemente, o psiquiatra rabiscou algumas palavras e lhe entregou o receituário. E ela, satisfeita com o que tinha em mãos, saiu correndo em direção à primeira farmácia que encontrou pelo caminho.

Só que o farmacêutico parecia não entender as letras do médico e devolveu o receituário. Acostumada com a incompetência alheia, recebeu o papel e preparou-se para ler. E o fez. E as palavras no corpo dançaram freneticamente. A tal ponto de fazê-la cair sentada no chão. E dos seus olhos caíram lágrimas. E da sua boca, soluços. E não havia nada que acalmasse as palavras em seu corpo. E o que estava escrito no receituário? O que lhe indicara o médico? Que finalmente era hora de libertar a poesia que vivia dentro dela.

Em fuga

Não havia tempo a perder. Agora que estava decidida, era preciso correr. Lançando a mala sob a cama, jogou dentro tudo o que conseguia pegar. Não podia dar-se ao luxo de dobrar as roupas, guardar os sapatos separadamente, escolher as bijuterias. A ordem era simplesmente pegar o que conseguisse e colocar o pé na estrada.

Ao perceber que a mala estava cheia, fechou-a. Não sem dificuldade, claro. Mas o que era esse pequeno obstáculo perto do que logo enfrentaria? Antes de sair, olhou-se no espelho. Mal se reconhecia. Por mais que houvesse coragem, reconheceu impregnado em si o medo. O que temia? Do que realmente fugia?

Antes que se apegasse a outras divagações, saiu correndo. Estava decidida e ponto final. Era preciso fugir. E rápido. E logo. E agora. Com a mala em mãos, saiu correndo. Corria tanto e tão rápido, que a respiração chegava a falhar. Mas não podia se preocupar com isso. Não agora. Não naquele momento.

Apesar de tentar focar apenas na corrida, seus olhos desviavam-se para o caminho. Tinha a sensação de que conhecia todos os lugares por onde passava. Não, não pode ser, repetia pra si mesma. Estava correndo há horas e já devia estar bem longe de casa. Mas seus olhos insistiam que sim, ela estava nos mesmos lugares de sempre. Na mesma vizinhança de ontem, anteontem e por aí vai.

Não, não podia ser. E não era. Por mais louco que parecesse, decidiu correr de olhos fechados. Se eles a estavam enganando, agora era ela quem os iria enganar. Sorriu. Quando menos esperasse, estaria bem longe. Estaria em qualquer outro lugar que não lhe fosse familiar.

E correu. E correu. Como nunca. E correu. E correu. Sem parar, sem descansar. E correu. E correu. Sem saber pra onde ia, sem saber quando chegar. Até que, exausta, resolveu abrir os olhos. E simplesmente desabou.

E chorou. E chorou. Como nunca. E chorou. E chorou. Sem parar, sem descansar. E chorou. E chorou. Ao perceber que estava exatamente no ponto de partida. E chorou. E chorou. Ao ver-se dentro do próprio quarto. E chorou. E chorou. E chorou mais uma vez. Até que finalmente entendeu de quem estava tentando fugir: de si mesma. Só que essa, infelizmente, encontraria sempre onde quer que fosse.

Faxina

Olhou pra mesa e levou um susto. Papéis por todos os lados, canetas jogadas, post its colados com os mais variados recados. Respirou fundo. Organização não era mesmo o seu forte. Lembrou-se da própria casa. Da cama por fazer, das louças sobre a pia, das gavetas. Ah! As gavetas!

Tentou não pensar muito nisso. Precisava concentrar-se no trabalho. Havia muito que fazer e os prazos, há tempo estourados, apitavam a cada quinze minutos na tela do computador. O celular tocou. Não atendeu. Havia dias que fugia dele, afinal, não tinha a resposta que ele tanto queria. Estava tudo tão confuso, pensou.

Lembrou-se das últimas semanas e da nuvem que pairava sobre a sua vida. Estava em falta com os amigos, estava em falta com ele, estava em falta consigo mesma. Mas o que fazer, se não enxergava saída?

Percebeu mais uma vez que havia fugido da urgência do momento. Mas, por mais que tentasse focar, não conseguia. Um mar revolto rugia dentro dela, tragando tudo o que encontrava pela frente.

Sentiu o mundo rodar. Não apenas o interior. O exterior também. Respirou fundo, afastou-se da mesa. Precisava tomar um ar. Mas como, se ainda não terminara tudo o que tinha fazer?

Foco, repetiu pra si mesma. Foco, era tudo o que precisava naquele momento. Enquanto olhava pra tela em branco, o coração ia repousar no ombro dele. E a cabeça inventava mil desculpas para o silêncio dos últimos dias.

Num rompante, pegou a bolsa, desligou o computador e saiu. Percebera, enfim, o óbvio. Era tanto entulho, tanto lixo, tanta tranqueira, que não havia modo de prosseguir enquanto uma bela faxina não fosse imediatamente realizada.

– Posso me encontrar com você? Precisamos falar…

O primeiro saco havia sido colocado pra fora. A faxina começara, enfim. E ainda havia muito o que fazer.

A velha

Olhou-se no espelho e não se reconheceu. Exatamente como há 10 anos, quando começaram as plásticas. Naquela época, porém, as rugas tampavam o rosto que ela pensava ser o dela. Hoje, a falta delas simplesmente abre um semblante que ela não mais reconhece como seu.

Pequenas intervenções, dizia tentando convencer-se. Uma esticadinha aqui, outra ali. E lá se foram todas as marcas e com ela as lembranças dos momentos que as trouxeram à tona.

Nossa, como você está jovem, repetiam os amigos. Ah, quando eu tiver a sua idade, quero estar enxuta como você, diziam as venenosas amigas. E entre os elogios, ela simplesmente se perdia numa tentativa desesperada de encontrar-se.

Até aquele momento. Quando, num raro instante de lucidez, entendeu o inevitável: por mais que passasse o rosto a ferro, sua alma estava invariavelmente amassada. As rugas de fora se tornaram inexistentes, mas a de dentro clamavam cada vez que se olhava no espelho.

Velha, repetiu baixinho. Velha, outra vez. Velha. Velha. Velha. Até que a rua inteira conseguiu ouvi-la gritar a plenos pulmões: velha!

Lágrimas correram-lhe pelo rosto e, sem encontrar qualquer barreira natural, rapidamente empoçaram-se no chão. Sentou-se em meio a elas sem parar de repetir: velha. Teve a sensação de que iria afogar-se em tamanha dor, mas estava errada. Depois do choro, um riso descontrolado tomou conta do cômodo: velha. Velha, velha.

A palavra que antes a amedrontava, agora, pouco a pouco, a libertava. Velha. Velha, era isso o que ela era. Levantou-se e foi até o armário. Repetindo a palavra mágica, velha, foi arrancando de lá tudo o que não condizia com sua situação. Durante anos tentara fugir da palavra. Agora, finalmente, ela a encontrara.

Pilhas e mais pilhas ficaram espalhadas pelo chão. Teve a certeza de que não haveria nada ali que servisse para a sua nova condição, velha. Precisava urgentemente paramentar-se para esse novo momento. Usando apenas o roupão, desceu as escadas e tomou a rua. Enquanto um passante chamou-a de louca, ela simplesmente virou-se e disse:

– Louca, não! Velha!

Sorriu. Era a primeira vez em anos que se encontrava consigo mesma. Não aquela que vira no espelho. Mas aquela amarrotada, que habitava dentro dela. E, por mais que fosse estranho admitir para si mesma, gostara do que vira: uma velha, enfim!

***

Esse conto surgiu após a leitura desse texto aqui: Me chamem de velha, que eu sinceramente recomendo.