Um conto leve

Enquanto os créditos finais subiam e as luzes se acendiam, a multidão saía silenciosa do cinema. Nenhum rumor, nenhuma palavra. Pude ouvir apenas os passos e, mesmo assim, tive a sensação de que todos evitavam pisar mais firme. Um ou outro suspiro marcava a saída e nada mais. A película tinha sido mais que um filme. Fora uma experiência de vida. Do tipo de filme que não se assiste apenas com os olhos, mas com a pele. Definitivamente ninguém saiu da sala como entrou. E, olhando em volta, percebi que havia alguém que parecia nem querer sair.

Diante de tamanho silêncio, vê-lo ali, sozinho, olhando para a tela em branco, não parecia algo tão estranho assim. Só causava certo incômodo porque enquanto todos se organizavam para sair do ambiente, ele aparentava agarrar-se àquela experiência o máximo que pudesse. Simplesmente desprezava o movimento de saída. Para ele, observei,  os créditos finais ainda eram parte do filme.

Não pude ficar alheio àquilo. Não depois de assistir a um filme tão belo. Quando resolvi voltar e ver o que realmente acontecia com ele, um homenzarrão passou por mim como um caminhão desgovernado. Calma no Brasil! Pensei comigo. Para meu espanto, o gigante parou ao lado da única poltrona ainda ocupada. Minha aflição se transformou em completo desespero. Não sabia se procurava um segurança ou se tomava partido do entrevero que poderia se iniciar.

A cena era bíblica: um Golias agachado, resignadamente conversando com um frágil Davi, que deveria ter algo como 90 anos. Cuidadosamente, o homenzarrão acomodou o senhor em seus braços e começou a sair da sala. Ruborizei por tê-lo julgado e por ainda estar ali, estático. Os dois passaram por mim naturalmente, como se minha presença não importasse. Ou pior, como se a postura que assumi fosse a que normalmente todos assumem.

Cabisbaixo, continuei meu caminho. Entre o cinema e o carro devem ter se passado uns 30 minutos. Não conseguia simplesmente desprezar o que estava acontecendo. Sentia que devia desculpas aos dois. No estacionamento do shopping, revi aquelas duas figuras. Não me permiti, simplesmente, entrar no carro e ir embora. Fui em direção a eles, que agora tinham uma cadeira de rodas dando mais conforto e dignidade ao velho homem. Polidamente me aproximei, falei do meu desconforto, me desculpei. O rapaz, que agora descobri ser neto, me contou brevemente sua história.

O avô sempre foi um amante das artes, principalmente, da sétima. Segundo ele, o cinema tirava a efemeridade do teatro e, por isso, o tornava eterno. Sempre frequentou os cinemas da cidade. Os filhos, os netos, os familiares, os amigos, sempre o tiveram como referência de alegria e sapiência. Mas os anos se passaram e o corpo mostrou seus limites. Já não andava, falava pouco e com dificuldade, mas enxergava e ouvia muito bem. Principalmente se levássemos em conta seu quase um século de vida. Hoje, sozinho, seria impossível dedicar-se à paixão pela sala escura. Por isso, em alguns dias da semana, o neto levava o avô nos braços e o colocava dentro da sala, para que assim continuasse vivo. Enquanto ainda conversávamos, fomos interrompidos pelo frágil Davi, que disse bem baixinho:

– Tudo o que temos… é só o que precisamos.

Não tínhamos mais o que falar. Despedimo-nos. Busquei meu carro. Meu coração estava leve de novo. Dormi uma das melhores noites de sono da minha vida. Afinal, o que tenho é só o que preciso.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

Um Carnaval de Cinzas

Antes do relógio marcar 6h ela já estava de pé. Há trinta anos todo dia era a mesma coisa: acordar, passar o café, arrumar a mesa, despertá-lo, buscar o pão e o jornal, servi-lo, levá-lo até a porta, despedir-se. Ligar a TV, assistir ao programa feminino matinal, pegar a receita de logo mais. Organizar a cozinha, a sala, os quartos, a casa, enfim. Fazer o almoço, abrir a porta com um sorriso, ajudá-lo com o terno, servi-lo. Zelar para que ele não ultrapasse os 20 minutos de soneca. Despertá-lo, levá-lo até a porta, despedir-se. Lavar e passar (nem sempre nessa ordem). Organizar meticulosamente todas as gavetas dele. Ir até a calçada e sorrir com as piadas de Dona Janota. Voltar, preparar o jantar e esperá-lo chegar. Abrir a porta (dessa vez sem sorriso) e ouvi-lo pacientemente despejar toda a insatisfação com o serviço. Servi-lo, organizar a cozinha, assistir ao telejornal com ele e à novela sozinha. Ir deitar-se sem pensar em nada sabendo exatamente como será o próximo dia.

Sábados, domingos e feriados, claro, tinham uma rotina só sua. A presença dele, em casa, a incomodava. Por mais que não trocassem mais do que poucas palavras, ele estava ali. Na sala, enquanto ela preparava o almoço. No quarto, enquanto ela organizava a casa. No quintal, enquanto ela fazia o jantar. Assim, era fácil entender a angústia dela ao perceber que o Carnaval se aproximava. Seriam 4 dias e meio com ele ali, o tempo todo. Seriam 4 dias e meio de uma incômoda presença a alterar-lhe a rotina.

E quando o sábado de Carnaval chegou, ela teve certeza de que seus temores tinham fundamento. Apesar de ter prometido a si mesma que nada mudaria, ele não havia sido comunicado dessa determinação. E lá foi ele comprar, por si mesmo, o pão e o jornal. Mal sinal, o coração dela anunciou. Mal sinal. O que começa ruim termina pior.

Quando procurou os apetrechos do café, percebeu que a garrafa estava cheia e a mesa pronta. Chocou-se. Que café delicioso! Ele retornou e trazendo o último número da revista Tricô. A perturbação pela quebra da rotina já não era o maior dos temores. Quem seria aquele homem que amanheceu em sua cama? Durante anos de casamento, ele nunca agira assim. Como sempre foi igual, ambos já estavam perfeitamente adaptados a essa condição. Já não existiam como individuos. Por mais seca e fria que parecesse a relação, eram um casal. E como casal, seus papéis estavam bem definidos. Eram engrenagens azeitadas e eficientes que ele não tinha o direito de, na primeira manhã do Carnaval, destruir

Nada foi dito. Sentaram-se em seus respectivos lugares, tomaram café. Aqueles poucos minutos pareceram eternos. O silêncio fomentou ainda mais a incredulidade dela diante dos acontecimentos. Nem percebeu que seu marido parecia mais tranquilo. Mais leve. Mais feliz. Recusou-se a se aproximar quando ele veio em sua direção. Não discutiram. Ela procurou acento no sofá onde podia assistir à TV confortavelmente. Ele a seguiu, mas buscou a janela, onde pôde acompanhar os últimos minutos do nascer do sol. Os raios da manhã deram a impressão que ele sorria discretamente, como quem estivesse satisfeito.

Ela continuava não suportando tudo aquilo. Mal esperou seu programa terminar para começar o mutirão de afazeres domésticos. Não importava se era final de semana, tampouco feriado. Precisava ocupar a cabeça e parar de pensar que seu marido estava possuído. Ele continuava silencioso e tranquilo, parecia volitar pela casa. Felizmente, por algumas horas, ela se esqueceu do incômodo que fora o início do dia. Ele deve ter saído, pensou.

Sua rotina finalmente havia retornado. Concluiu as tarefas matutinas e iniciou o almoço, desacompanhada. Confiante que seu marido chegaria pontual, como sempre, para a refeição, sentou-se e esperou. Mas ele não veio. Não apareceu. Mais uma vez a rotina foi destruída. Onde ele teria ido? Que dia! Impaciente, ia da sala à cozinha, como se esse ritual respondesse algo. Se não fosse a raiva, certamente estaria desesperada. Resolveu sair e buscar ajudar, só precisava pegar a bolsa no quarto.

Entrando no quarto, a raiva instantaneamente virou ódio. Ele estava deitado na cama, com os olhos fechados. Parecia simplesmente ter adormecido ali, sem se dar conta do que acontecia à sua volta. Ela, porém, chegou ao próprio limite. Descontrolou-se, gritou, esbravejou, chorou… e nenhuma resposta. Pensou em arremessar alguma coisa, em atingi-lo com algo mais do que palavras. Respirou fundo, tentando buscar a calma que havia perdido ao despertar.

Sentindo-se injustiçada por ser a única a incomodar-se com a quebra da rotina, chacoalhou-o. Novamente sem resposta. Outro. E mais outro. Nada. O que era ira transformou-se em furor e, pela primeira vez em trintas ano de casada, permitiu-se perder as estribeiras, esbofeteando-o. Nenhuma resposta. Com o coração palpitando, as mãos trêmulas e a cabeça cada vez mais confusa, chorou. Incontrolável. Veemente. Desesperada.

Rendendo-se, enfim, ao cansaço, deixou-se cair sobre o peito dele. Foi quando percebeu, finalmente, que sua rotina nunca mais seria a mesma. Depois de bagunçá-la naquele dia com sua presença, alterá-la-ia para sempre com sua ausência.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

Um conto de chuva

Era bem tarde quando saí do trabalho. Quase outro dia. Resolvi caminhar e tentar deixar a tensão pelo caminho. Em menos de uma hora estaria em casa, pronto para um banho e uma pizza fria de ontem. Minha terapia sempre funcionava.

Poucos passos e já nem me lembrava daquela extenuante jornada de 15 horas que mal acabara. Para limpar de vez os pensamentos, começa uma garoa fina que me obriga a colocar as mãos nos bolsos. Caminho displicente e desinteressado.

Vários rostos desconhecidos cruzam meu caminho pelas calçadas frias. A grande vantagem das conurbações é escolher a solidão no meio de uma turba. Sou mesmo um cosmopolita! Todos os meus amigos, antes mesmo de eu vir, já se foram e tem cheiro de ácaro e papel velho.

A poucas quadras de casa, algo me chama a atenção: um grupo de assistentes sociais conversa com um garoto. Este, só mais um dos invisíveis que moram nas ruas, sem identidade, sem perspectivas, sem amigos, só uma sombra sem corpo. Aqueles, o exército da salvação governamental que a cada dois anos sai às ruas para sua limpeza. Não sei porquê, mas só em anos pares. Mas a cena estava do avesso, o garoto se mostrava extremamente disposto à sua retirada e o grupo habilmente acalmava o choro do Capitão de Areia. Ele repetia em meio aos soluços que queria ajuda, queria sair dali, queria uma cama… mas não iria sozinho.

– Só vou quando o Maninho voltar.

O sofrimento dele me entranhou os ossos. Não consegui seguir para casa. A chuva engrossou, mas pouco me importei. Me sentia impelido a fazer algo. Me aproximei, perguntei sobre o Maninho. Vagamente me responderam… apurei que eles tinham praticamente a mesma idade, sempre estiveram juntos, um cuidava do outro e o desaparecido parecia estar doente. O menino jamais deixaria seu irmão para trás. Tentando ajudar, perguntei se sabia a que horas voltaria ou mesmo onde teria ido.

– O Maninho sempre dá uma volta nesse horário. Nem sei onde vai, mas sempre volta com alguma comida.

Dei uma olhada em volta. Pensei nos restaurantes e bares da região. Não haveria muitos abertos até aquela hora. Me dispus a acompanhar o menino em sua busca, afinal, com aquela chuva ninguém iria muito longe. Quando nos preparávamos para partir, um dos assistentes sociais segurou-me pelo braço e disse rispidamente:

– Vocês têm quinze minutos para achar o outro e voltar. Se não chegarem a tempo, vamos embora.

Caminhamos rapidamente em meio a chuva que, naquele momento, era um temporal. As gotas, espessas, machucavam a pele. O menino, mirrado, projetava a cabeça numa tentativa de cortar o vento e avançar. Se para um adulto a tempestade era torturante, para uma criança como aquela era ainda mais insuportável. Mas por seu Maninho, ele me mostrava, qualquer esforço valia a pena.

Vasculhamos a vizinhança e nada. A cada bar, a cada restaurante, a cada esquina, aumentava a aflição do menino que não se continha num choro doído e ininterrupto. Tive vontade de abraçá-lo, confortá-lo, só não sabia como. O tempo passava e a chance do menino deixar a rua era cada vez mais remota.

Olhei no relógio. Tínhamos apenas mais um minuto. Comecei a bolar uma estratagema que convencesse o menino a ir sozinho com os assistentes. Outro dia certamente se encontrariam. Maninho não ficaria chateado, afinal, estava chovendo e ele também devia ter buscado abrigo ou tentado se proteger.

Meus pensamentos foram abruptamente cortados por gritos de euforia. Havíamos finalmente encontrado o irmão! Mal me acostumei com a insolidez daquele encontro e a euforia deu lugar ao desespero. Maninho não tinha ido buscar comida. Eles nem eram irmãos. Mas com certeza eram iguais, dois vira-latas, duas sombras, dois amigos, um era a riqueza do outro. Se de fato tinham a mesma idade, o cachorro já era um idoso canino. Talvez por isso tenha se afastado: para morrer sozinho e poupar o irmão. A essa altura o garoto já não tinha chão, estava petrificado pelo sofrimento. Nem se deu conta de que foi carregado pelos assistentes sociais para dentro de uma Kombi da prefeitura. Não tentaram tirar o cachorrinho de seus braços, sabiam que seria impossível. Rapidamente a Kombi sumiu chuva adentro. Sequer tenho a mínima ideia de quanto tempo fiquei ali vislumbrando o nada. Já era madrugada quando percebi que estava faminto, molhado e… renovado.

Esperei o sol acordado. Aquele garoto perdeu um irmão, mas ganharia um nome tanto quanto eu ganhei um motivo…

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

Um conto bobo

Carecia de encontrar uma boa história. Os cobres já estavam no bolso e Seo Deodato no cangote. O jornal não podia mais esperar. Seu espaço estava bem marcado e caso a história não brotasse, uma foto dele iria aparecer por lá. Garboso, como só ele podia ser. Já imaginava os amigos do botequim fazendo troça. Aquilo não ia prestar.

Escorregou pela cadeira e caiu na rua. Olhava em volta, com olhos de caçador. Onde estaria sua presa? Por onde se esgueirava sua história? Passou por uns molecotes maltrapilhos e já lhes inventou uma sina. Não, de histórias tristes a mulher de Seo Deodato não gostava. Observou um casal enamorado. Tão jovenzinhos, tão suspirantes. Já imaginou bobiças e isso corava por demais as doces leitoras. Se dependesse dos outros, nunca que essa história apareceria.

O calor, o desespero, o avançado da hora. Tudo o fazia transpirar. Precisava voltar para a redação, mas não sabia como explicar a Seo Deodato que história não havia. No caminho, percebeu uma leréia na porta do café da praça. Seu faro aguçado o fez se aproximar. Ah! Mas não era nada. Era só o bobo Dinho sendo chacoteado mais uma vez.

Como de costume, pediam que Dinho se aproximasse e escolhesse entre uma moeda de 1 real e uma cédula de 10 reais. Ele sempre ficava com a moeda. Como gratificação pelas risadas, ganhava a moeda. E respondia:

– Cada um oferece o que tem.

Ninguém sabia onde Dinho morava ou de onde vinha. De repente aparecia, de repente sumia. Não tinha família. Não tinha casa. Boatos não faltavam, ou ele era filho de um incesto, ou tinha enlouquecido de tanto estudar, ou sofreu um acidente, ou caiu do berço quando criança… ninguém sabia a história real.

Era essa a história que há tanto procurava… quem era o bobo?

Dinho mal colocou a moeda no bolso e saiu em retirada. Parecia ter lembrado de um compromisso urgente. Se afastando do centro da cidade, entrou num armazém e tirou algumas moedas do bolso, quantia exata para comprar uma vara de bambu, um carretel de linha de pesca e meia dúzia de pequenos anzóis. Saiu do armazém como num rabo de foguete. Continuou andando rumo ao depósito de lixo da cidade. O lar de ratos, urubus e alguns rejeitados pela sociedade. Todos viviam do lixo. Dinho mal chegou e foi cercado aos gritos de:

– Agora sou eu! Essa é minha! Eu quero! Dá cá!

Escolheu alguém e juntos, deixaram os outros. Pegaram uma estradinha de terra que, alguns quilômetros depois, acabaria num ribeirão. Mesmo de longe, percebia-se que Dinho estava pacientemente orientando seu companheiro. Amarrou a linha na vara, depois no anzol. Em seguido, andou em volta e escolheu um local para começar a cavar, com as mãos mesmo, naquela terra encharcada. Separou algumas minhocas, que seriam iscadas e lançadas no ribeirão. Não demorou um minuto, a vara envergou-se, mais que depressa Dinho fisgou o primeiro lambari da pescaria. Chamou a atenção de seu ouvinte como se mostrasse a maneira correta de retirar o anzol da boca do peixinho. Entregou a vara e foi embora…

Seo Deodato olhou a folha incrédulo. Ou aquela era a melhor história que lhe chegara às mãos ou a pior. Olhou para o relógio. Não podia se dar ao luxo de decidir. Ou era aquilo no jornal ou a foto do moço que, parado, esperava uma resposta.

– Leve isso agora mesmo para a prensa. E seja o que nosso bom Deus quiser.

No dia seguinte, não se falava em outra coisa pela cidade. Aqueles que não conheciam o tal do Dinho, passaram a querer conhecê-lo. Aqueles que conheciam, procuravam uma oportunidade de perguntar ao jornalista se aquela história era real ou se era apenas uma lorota de mais um dos tantos metidos a escritor que infestavam a cidade.

O certo é que Dinho agora fazia parte do imaginário de todos que, ansiosos, esperavam pelas histórias que ainda viriam. Sim, porque já era certo, para os leitores do semanário, que real ou não, os caminhos do bobo deveriam estampar outras tantas páginas a partir dali.

(Rodrigo  Duarte e Renata Cabral)

Um conto seco

Nos últimos anos, aquela era a terceira de suas crias que a terra engolia. Já nem existia mais lágrimas. Já não tinha mais ladainha. O ritual era sempre o mesmo: embrulhar o pequeno num trapo velho, quando havia, levá-lo ao pé do morro, abrir uma cova. E com o pouco de força que ainda restava, voltar e continuar a vida.

Enquanto voltava para casa, olhava ao redor, a terra seca, pouco convidativa. Não adiantava plantar, que nada pegava. Não adiantava criar, que nenhum vingava. E a gente que ali vivia, com a terra se parecia: feia, castigada, maltratada. Gente seca. Pensou no menino. Mais um… Menos um… Menos uma boca para chorar. Menos uma boca para alimentar. O coração aperta. A respiração pára. Quem seria o próximo? Quem mais a terra levaria? Parou à porta da tapera em que morava. Hesitou em entrar. E se simplesmente se virasse, fosse embora, deixasse tudo para trás? Lembrou-se do marido que há anos não via. Que havia partido com juras de que um dia voltaria.

Perdeu o companheiro para a promessa sudestina do trabalho abundante, do tesouro mensal garantido. Certamente um Éden que não permitia o retorno daqueles que seduzidos se aventuraram por lá. Inúmeras famílias foram desfeitas. Curiosamente, só retornavam aqueles que não encontravam o eldorado, afinal, nem todos merecem o paraíso. Àqueles que obtiveram êxito restava direcionar as orações desesperadas e esperar que um dia se lembrassem da família, dos amigos, do caminho de casa. Mais ainda, que buscassem os seus.

Inerte, continuou congelada na entrada de casa. Nem o choro das oito crianças espalhadas pelo piso de terra batida e muito menos os chamados do estranho que se aproximava a despertavam. Só voltou à realidade quando o maltrapilho lhe tocou o ombro e as crianças se calaram de desespero.

– Maria, sou eu!

Ela mal reconheceu aquele que um dia fora seu companheiro. Por mais sofrida que fosse a aparência daquele povo, todos emanavam uma aura de guerreiros. Tão castigados quanto persistentes, dificilmente se entregavam às mazelas da vida. Mas aquele arremedo de homem nem lembrava o intrépido aventureiro que anos atrás saiu em busca das terras frias. Mais magro, mais velho, menos homem, menos vivo… ainda mais seco. O abraço que se seguiu, certamente, durou horas. Enquanto se amparavam mutuamente, ele falou sobre os tesouros que encontrou. O paraíso do lixo, do preconceito, da pobreza, da solidão, da humilhação. Descreveu como era aquele Éden contemporâneo com os céus ocos sem estrelas, com suas plantações de prédios, com seus campos de asfalto, com seus rios fétidos, com seus ares pútridos, da cidade dos outros.

Se desculpou por tudo que a família passou. E garantiu que voltou o mais rápido que pôde, assim que se deu conta daquele cenário. Infelizmente, aos pobres só lhes restam as forças do corpo e com essas poucas seguiu de volta o caminho de casa… caminhando.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

A carta de Nanim

Nanim, meu Nanim,

Pra começo de conversa, peço desculpas pela assombração que se põe a ler essas linhas bem à sua frente. Infelizmente não achei portador melhor ou de mais confiança. Apesar de ela haver jurado nunca mais cruzar o seu caminho, convenci-a de que, em nome de meu falecido pai, ela me devia um último favor. Já que não para de falar que ele era um homem tão abençoado…

Assim, não se apegue à carranca assustadora de Imaculada. Nem se incomode se ela proceder à leitura em pé, à porta de sua casa. Sim, porque tenho certeza de que, refeito do susto de vê-la e de saber que ela traz notícias minhas, você deve tê-la convidado a entrar e tomar assento. Deve ter convidado até para tomar um gole do café que acabara de fazer só pra você, enquanto se refariam, os dois, do susto. Mas ela, teimosa como uma mula, recusou a tudo. E disse ainda que leria rapidamente a carta que tinha em mãos em pé mesmo e, após a leitura, voltaria pelo mesmo caminho que veio sem esperar resposta. Porque ela não era obrigada a virar alcoviteira de demônio depois de velha, Deus o livre!

Não leve nada disso em conta, Nanim. Apesar de todo mau jeito, essa velha encruada tem coração, um bom coração. Não gastemos mais lápis e papel com ela, por que o que gastei até aqui já está de bom tamanho. Simbora falar do que é bom, nós dois.

Logo que soubemos da morte de nosso pai, mais que depressa minhas irmãs e eu começamos a arrumar as malas para irmos embora pra sempre. Nós éramos prisioneiras dentro de casa. Meu único acalento era te ver, mesmo que distante. Sonhar com a vida a seu lado. Sonhar com nossos meninos e meninas. Sonhar com nossa casinha rodeada de rosas, com o quintal cheio de pés-de-fruta. Sonhos que sempre eram interrompidos pelos desmandos de meu pai. O sofrimento, meu e de minhas irmãs, era tão grande que mal a notícia de sua morte chegou, já queríamos sair. Queríamos viver. Queríamos respirar. Queríamos existir. Como Januária, minha irmã mais velha, já tinha um plano matutado há muito tempo, decidimos seguir seus passos.

Uns meses atrás um circo pediu pouso nas terras de Seu Miliano, você deve se lembrar disso. Todo mundo lembra. Foi o maior alvoroço, todos comentavam. Para nossa sorte, nesse mesmo dia meu pai saiu à procura de um sujeito que conversou demais. Nessas idas era comum que nunca mais se ouvisse falar do tagarela e que meu pai demorasse uns dois dias, pelo menos, para voltar. Aproveitamos e fomos ver como era esse povo de circo. Ficamos de longe vendo o movimento, mas Januária não se conteve e chegou mais perto, encantada com o barulho, com as cores e com as pessoas. Enquanto ela se esgueirava pelos trieiros buscando uma visão mais privilegiada daquela leréia, sem que fosse descoberta, como fumaça, surge um homem bem à sua frente. Ele era muito alto, muito magro e com um chápeu muito comprido na cabeça, depois descobrimos que ele era muito mágico também. Ficamos desesperadas e corremos de volta pra casa. Enquanto estávamos ajoelhadas em grãos de feijão cru rezando os quatro terços do rosário, Januária entra com os olhos brilhando. Queria por tudo ir embora com o circo. E viver de mágica.

Ainda estávamos envolvidas nas histórias e promessas de Januária, quando meu pai repentinamente chegou. Só vimos o cutelo ainda sujo de sangue quando ele passou para o quarto. Nesse momento, o silêncio era absoluto em casa. Nenhum som se ouvia quando ele ali estava. Acho que se meu pai não chegasse naquela hora, todas teríamos fugido no mesmo dia. Desde então, Januária começou a traquinar uma forma de reencontrar seu mágico. Quando ouvimos o primeiro boato de que ele tinha morrido nas mãos de um caboclo mirrado, fizemos as malas mais que depressa. Não pude te esperar. Fiquei com medo de que fosse só mais um boato como vários outros que já tínhamos ouvido e que alguns dias depois se mostraram infundados com o regresso de meu pai a casa.

Na correria, não tive tempo de nada a não ser arrumar minhas coisas e colocar o pé no mundo. Pensei em deixar recado… quem daria? Pensei em deixar bilhete… quem entregaria? Mas não havia tempo a perder e nem sabíamos se o circo ainda estava à nossa espera. Não pense você, Nanim, que a fuga foi fácil pra mim. Chorei o caminho inteiro, até o circo. Depois, já dentro do caminhão velho, chorei ainda mais. Num teve palhaço que fizesse graça o suficiente pra tirar de mim um único sorriso. Me derramei em lágrimas até o dia em que, não sei como, Januária descobriu que foi você o tal que acabou com o nosso tormento. A partir daquele momento, por mais que ainda me doesse não estar a seu lado, sempre que me lembrava de seu olhar na cerca lá de casa, um sorriso me surgia, Nanim. Sorria muito, porque o meu amor me libertou. Já não consigo viver sem você. Não paro de pensar em você, não paro de pensar em nós.

Agora, você deve estar se perguntando o que eu fiz durante esse tempo todo. Por que, depois de ter certeza que meu pai tinha morrido de verdade, eu não voltei pros seus braços? Por que eu num deixei o pessoal do circo pra trás e simplesmente num corri de volta pra você? É simples, Nanim, porque eu quis proteger o nosso amor de uma maldição. A minha maldição…

– Pera, mas qui mardição? Ixplica esse trem direitu, sô! Qui conversa sem pé nem cabeça!

O sertanejo acorda num sobressalto que quase o atira da cama. Suado e ofegante, mal conseguiu pronunciar aquelas palavras. Não mais que de repente, se deu conta de que não sabia ler e de que não havia no mundo quem o fizesse por ele. Percebeu que estava sozinho em seu rancho. Viu que não havia carta alguma. Mas o sorriso matreiro de canto de boca foi inevitável.

– Uai, si eu sonhei cocê, Bina, di certo tem motivo. Si num tivesse causa num tinha sonhado. I comu us trem qui eu sonho tudo aconteci, é mió eu fazê um cochão maiózim, qui essi meu num cabe nóis dois. Qui eu tava enamarado por ocê num é novidadi. Mas sonhá cocê apaixonada neu, é bão por dimais!

Esfregou o sapeca-negrinho no rosto para enxugar um pouco do suor e voltou a se deitar na cama de palha seca. Calmamente se ajeitou em seu rústico leito, desejando que o sonho com Setembrina continuasse. Sabia ele que quanto mais sonhasse com sua flor de laranjeira, mais próximo seria o reencontro.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

***

Pra saber como essa história começou, leia Nanim

A outra face

Fechados os botões do terno, ele simplesmente se levantou e foi embora, deixando sobre a mesa duzentos reais para pagar a conta. Atônita, ela acompanhou a cena sem acreditar no que seus olhos viam. O primeiro pensamento que lhe veio à mente foi o mais idiota possível: como faria para voltar para casa? Depois, caindo em si, perguntou-se: que casa?

Esperou o garçom contabilizar a conta e trazer o troco. Pronto, já tinha o dinheiro do táxi. Mas pra onde iria? Pra casa, ora essa! Mas pra que casa se, alguns segundos atrás, ele simplesmente lhe avisara que todas as suas coisas seriam enviadas para o local que ela escolhesse?

Tentou se acalmar. Não seria de bom tom uma mulher como ela chorando na porta de um restaurante. Humilhação, repetiu para si, tem limite. E a sua cota estava além do aceitável naquele dia.

Resoluta, caminhou lentamente até a saída. Envolta em seus pensamentos continuou, ignorando o mundo. Não respondeu se desejava um táxi, não disse qual era seu carro. Não esboçou qualquer palavra. Estava tão muda quanto cega ao caminhar sem destino, fitando o vazio. Quase uma hora depois, seu salto se quebra. E num rompante de lucidez, ela se dá conta de que não tem a menor ideia de onde está. Nunca estivera ali antes. Nada lhe era familiar. Num amálgama de medo e desespero, lembra-se do trágico jantar de há pouco. Tudo é sem sentido.

Não há muito que fazer a não ser seguir, descalça, até um local amigável, até o plano, até a luz. O sofrimento é tanto que a dor ganhou ressignificância. Se os pensamentos não conspiram a favor, o destino assim o faz. Num canto escuro, na calçada suja, um homem agoniza. Parece vestir o que um dia foi um fraque, agora irreconhecível, rasgado e sujo de sangue. Ela se aproxima, instintivamente, tentando ajudar. Um homem grisalho, pequeno e frágil tenta respirar ofegante com o nariz desfigurado, praticamente irreconhecível. Ela limpa seu rosto o quanto é possível, tentando fazê-lo falar. Ele desfalece em seus braços. Como uma mãe, ela o acolhe protetora, busca o celular e pede ajuda.

Não consegue passar muitas informações além daquelas que estão diante dela: um homem, aparentando cerca de 50 anos, talvez um pouco menos, agoniza em uma esquina. Aperta os olhos tentando enxergar, em meio à escuridão, o nome da rua. Rua 15, repete para a moça que a aguarda do outro lado da linha. Não, não sabe dizer o nome dele nem tampouco o que realmente aconteceu. Sim, ele está machucado. Sim, está sangrando. Sim, está desacordado. Será que teria como parar de perguntar e simplesmente mandar o socorro? Agradece e desliga o celular.

Colocando o aparelho no chão, ajeita o desconhecido, delicadamente, em seu colo. Por mais desfigurado que ele esteja, não consegue se horrorizar com a cena. De alguma forma aquele estranho lhe atrai. Não há qualquer razão aparente, nem motivo que justifique, mas não consegue tirar os olhos dele. Em meio ao sangue e apesar do nariz tão machucado, consegue ver os traços do que um dia deve ter sido um belo rosto. Sem perceber, toca-lhe os olhos, a boca, afaga-lhe os cabelos.

Como por reflexo, ele abre os olhos. E ficam ali, os dois, encarando-se mutuamente. Aqueles quinze minutos pareciam eternos, palavra alguma foi dita, apenas se olhavam, até serem interrompidos pela ambulância que finalmente chegara. Enquanto o homem era atendido, ela não conseguia soltar sua mão. O contato físico era tão necessário quanto o ar que ela respirava. Com o corpo imobilizado, o rosto limpo e preso a uma maca, ele é colocado rapidamente dentro do veículo. E ela é acomodada ao lado do enfermo, como se fossem próximos. O silêncio prevalece. Ambos parecem não ouvir as perguntas dos para-médicos.

Minutos depois, a caminho do hospital, ele perde os sentidos. As várias tentativas de reanimação não tem sucesso. Ele sai da ambulância para a unidade de terapia intensiva. Ela não consegue abandonar o desconhecido.

Não consegue responder às perguntas dos médicos. Nome, endereço, telefone, plano de saúde, o que realmente aconteceu? Nada! A única coisa que conseguiu dizer foi um sim, quando perguntada se conhecia a vítima. Sim? Questionou-se. Desde quando? Desde o momento em que, há poucas horas atrás, perdera aquilo que conhecia como vida e saíra andando, a esmo, por aí. Respirou fundo. Precisava decidir como prosseguiria a partir daquele momento.

Vendo o médico que os atendera na chegada, como por impulso, seguiu-o questionando sobre o estado do seu amigo. Agarrara-se à oportunidade que a vida lhe dera e assumira aquele papel, o de amiga. Talvez, era tudo que ela precisasse: um amigo. Em meio a seus pensamentos só ouviu a última palavra que o médico disse… faleceu! Não percebeu o que mais foi dito, muito menos para onde o doutor foi. Tampouco importava. Procurou um lugar para se sentar, enquanto tentava compreender o por que de tantos infortúnios. O olhar do homem não lhe saía da mente. O calor que sentiu ao segurá-lo em seus braços. Já nem se lembrava do que acontecera no restaurante.

De repente, tudo se encaixa. Aquele homem frágil, de olhar intenso, acabara de lhe mostrar que uma vida inteira, às vezes, vale menos do que poucos minutos de solidariedade. Ela já não sofria. Parecia ter encontrado o prumo. Não precisava da casa. Não precisava de dinheiro. Não precisava de bens. Só precisava de si mesma, de seu coração, de sua compaixão. Saiu do hospital abdicando seu passado e nascendo novamente. Renovada. Forte. Destemida. Decidida. Só precisava localizar uma cabine telefônica para, na lista, encontrar a instituição mais próxima que precisasse de sua determinação em ajudar quem preciso fosse.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral. Imagem: We heart it)