Na coxia

Semana passada a filhinha de uma amiga, de apenas dois anos, teve alguns probleminhas relacionados com quedas. Numa delas, machucou bastante o rostinho a ponto de parecer que ela havia sido maquiada com tons de roxo na face. Diante dos relatos da mãe da pequena, o tio dela soltou uma frase bem comum por essas bandas: “Ah, mas isso é bom! Ela tá endurecendo o couro”!

O tio dela, claro, não disse isso no sentido de comemorar as quedas. Apenas quis mostrar o que acontece do outro lado da cortina: se as quedas, nessa idade são inevitáveis, pelo menos trazem algo de bom – maior resistência e por aí vai. O mesmo acontece com os pais que deixam, pela primeira vez, seus filhos na escola ou mesmo na creche. A criança, que nunca tinha ficado doente, de repente descobre todos os códigos de doenças possíveis – otite, conjutivite, gripe… – e, diante do filhotinho doente, o que mais se ouve é: “Pelo menos vai ficar mais resistente!”

Hoje, quando terminava mais um capítulo de Implacável, best-seller cristão de John Bevere, fiquei pensando no que acontece nos bastidores, na coxia da vida de cada um de nós. Assim como para os pequenos, as quedas também são inevitáveis pra nós. As topadas de dedo, as batidas na cabeça, os tropeções, nos encontram mesmo que nós fujamos deles. E, diante disso, podemos tomar algumas atitudes: fazer de conta que nada está acontecendo (o que a psicologia chama de negação), nos lamentar pura e simplesmente ou entender que a vida é feita também das dificuldades, seguindo em frente.

De maneira nenhuma, como não canso de repetir aqui, faço uma ode ao sofrimento. Pelo contrário. Como também não canso de dizer, creio que devemos sim evitá-lo ao máximo no que depender de nós. Isso faz parte de ser saudável. Mas é preciso que tenhamos consciência de que algumas dores, alguns arranhões, comporão sim a nossa história, que não é feita apenas do que acontece no palco. Ela também é construída por aquilo que rola nos bastidores. E isso, na maior parte das vezes, foge do nosso controle.

Foge do nosso controle mas, com certa leveza e lucidez, pode ser incorporado ao texto da peça que estamos construindo. Enriquecendo o enredo principal e tornando os personagens ainda mais interessantes. Mas, claro, isso cabe a nós. É o que disse ali em cima: somos nós quem escolhemos como encarar as quedas, os problemas e as dificuldades.

Incorporá-las ao enredo, não é fácil nem indolor. Mas pode, com certeza, trazer resultados inesperadamente positivos. Ou, na pior das hipóteses, podem ajudar a “engrossar o couro”!😉

 

3 pensamentos sobre “Na coxia

  1. Acho que a dor faz parte do crescimento, é a nossa alma esticando como um elástico pra ganhar mais resistência, pra ir mais longe… É a retirada de algo velho pro novo ser colocado no lugar, como um tumor que se extrai numa cirurgia, e pra cura ser completa, precisamos sofrer com o pós-operatório.
    É o mesmo processo da azeitona pra ser transformada em azeite, do barro pra ser moldado, do ouro pra ser refinado.
    Mas o mais importante é o que vc disse: a maneira como reagimos a isso tudo e a reação positiva ou negativa que só depende de nós.

    Termino o comentário nesse post tão lindo relembrando o meu amadíssimo Graciliano Ramos e a sabedoria que só os simples de espírito têm: “Todo caminho da gente é resvaloso. Mas também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

    Amour =***

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