O massacre

Os resultados olímpicos brasileiros andam na contramão do esperado. Criou-se grande expectativa em cima de alguns nomes e, o que temos visto nos últimos dias, é uma profusão de entrevistas com “me desculpe”, “sei que não me saí bem”, “podia ter sido diferente”, “me perdoe, Brasil”.

Além das entrevistas com atletas cabisbaixos e nitidamente constrangidos, o que não cansamos de ver são grandes especialistas esportivos apontando o dedo, discutindo, esbravejando e massacrando nossos atletas. Sem contar nos cerca de duzentos milhões de especialistas de botequim que apontam, com grande certeza e imensa crueldade, os erros que deveriam ter sido corrigidos.

Diante do que temos assistido nos últimos dias, tem-se a impressão de que o Brasil é uma potência esportiva que, há muitas décadas tem investido no esporte e que, exatamente por tamanho investimento, tem cobrado exaustivamente resultados que sabe-se lá porque não vem. Só que a realidade, a gente bem sabe, é outra.

Poucos são os atletas bem remunerados nesse país. Uma minoria daqueles que se encontram em solo londrino pode dizer que recebe, seja de patrocinadores ou do governo, o suficiente para se dedicar integralmente ao esporte. A maior parte de nossos atletas está ali na raça, na vontade, no desejo único e exclusivo de fazer o que se gosta.

Só de estarem ali, esquecem-se os críticos, eles já são vencedores. E isso não é conversa de perdedor. Para fazer parte do seleto grupo de atletas que participa de uma olimpíada, eles precisam alcançar índices que deixam muitos outros pelo caminho. E, quando chegam a uma final, mesmo que não ganhem qualquer medalha, eles estão sim entre os melhores do mundo em suas categorias. Mesmo sem apoio, mesmo sem uma política governamental. E mesmo sem os aplausos que merecem, que fique claro.

Creio que o massacre que andamos assistindo nos últimos dias tem a ver com um problema social brasileiro: a nossa necessidade de heróis. Como vivemos em um país com tantas mazelas, procuramos exaustivamente aqueles que se sobressaem (seja onde for) e os alçamos à categoria de super-humanos. Só que, quando nossos heróis não fazem o que acreditamos que deveríamos fazer, nos sentimos traídos de tal forma que nos achamos no direito de massacrá-los. Afinal, eles traíram nossa confiança! Eles não fizeram o que desejamos! Perdedores, traidores!

Pobres de nós que não entendemos que, mesmo humanos, nossos atletas ainda sim são heróis. Heróis por acreditarem que, contra tudo e contra todos, podem sim nos representar. Heróis por fazerem bonito mesmo quando nós, os brasileiros, fazemos tão feio, massacrando-os. Heróis sem capa mas com o superpoder de, nadando contra a corrente, continuar acreditando que vale a pena ser atleta no Brasil.

4 pensamentos sobre “O massacre

  1. Ótimo texto, Rê.
    Acho que o comportamento que estamos vendo dos brasileiros vem dessa necessidade de heróis mas também da imaturidade de esperar que o outro faça aquilo que não se consegue fazer. Ou seja, não consigo ser “herói” na minha vida, então alguém que faça isso por mim e elimine minha carência e frustração. É jogar a responsabilidade nas costas do outro, tentar fazer com que ele carregue a nossa mala de expectativas e desejos.
    Comentei sobre isso no blog e a cada dia me convenço mais que é por aí: o atleta tem lá suas expectativas e metas e ele sim pode se sentir fracassado. Mas eu? O que eu tenho a ver com a realização dele? Absolutamente nada.

    • Rê, concordo com vc. E como! Jogamos no outro as nossas expectativas e, qndo ele não as cumpre (pq ele é ele, eu sou eu), nos sentimos duplamente frustrados. Mas é triste demais ver q enquanto povo, de maneira geral, não sabemos lidar com isso. Ou seja, enquanto nação, estamos longe da maturidade. E, ao ouvir q a presidenta andou ameaçando cortar as bolsas pífias dos atletas com “baixo” rendimento, fiquei ainda mais triste pq percebi q essa tão sonhada maturidade vai demorar a chegar!

  2. Acho que a tendência de eleger heróis e vilões não é um costume unicamente dos brasileiros, mas é algo inerente ao ser humano de um modo geral. Vejo muito essa característica no povo norte-americano, por exemplo.
    Acho tb que elegemos um herói não necessariamente por carência ou frustração pessoal, mas pq naquele momento específico ele(a) representa aquilo (uma posição, uma conquista, etc.) que gostaríamos de alcançar e não alcançamos por limitações particulares de cada um.
    Mas concordo numa coisa: o desrespeito (em todos os aspectos) com o qual os atletas brasileiros são tratados qdo não atingem o objetivo esperado. O cara ganhar uma medalha de prata ou bronze tem praticamente o mesmo significado de ganhar uma medalha de lata, ou seja, nenhum, pq só o ouro é bonito, só o ouro dá status e representa a vitória de fato(?).
    O bom desempenho dos atletas brasileiros em competições é uma moeda de troca negociada com o governo e os patrocinadores. No final das contas, é o dinheiro que comanda tudo pq patriotismo tb tem preço. Lamentável. =(

    Beeeijo! =***

    • Caty, creio q a necessidade de heróis pode mesmo ser uma necessidade inerente do ser humano. Mas acredito q em povos como o brasileiro, q carece de exemplos reais, isso acaba sendo acentuado. E o q a gente acaba vendo é esse triste massacre aos nossos atletas!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s