O castelo, o foço e quem realmente sou

Durante muito, muito tempo, morei em um castelo com um foço enorme me separando do resto da humanidade. Do alto da mais alta torre, acenava para as pessoas do lado de fora. E as pessoas, tão distantes, acreditavam no que eu queria: que estava tudo bem.

Só que viver na janela, de acenos, cansa. Ter que ficar o tempo todo cuidando do foço, também. Alimentar uma imagem de forte quando, no fundo sou muito, muito fraca, extingue toda a energia que poderia ser usada em outra coisa. Então, num belo dia, levantei-me e simplesmente mudei de casa.

E essa mudança, bem pensada, trouxe à tona quem realmente sou: uma pessoa emocionalmente frágil. Sem máscaras, sem armaduras, sem muros tampando a vista. Uma pessoa que se abala, que se dói, que não fica nada bem em muitos, muitos momentos.

Apesar de ter saído do castelo, o castelo não saiu completamente de mim. Quando me percebo frágil, luto, luto muito contra isso. Gasto energia, me esforço, tentando ser forte. Ou ao menos parecer. Me culpo por me abalar tanto, por me preocupar tanto. E, nesse processo tão angustiantemente cansativo, acabo pensando seriamente em voltar para a torre.

Só que amo minha casa nova. Amo a liberdade que conquistei. O castelo era grande, escuro, solitário. Suas paredes me oprimiam e seu poço, apesar de me proteger, também me sufocava. Diante disso, o que fazer?

Resolvi não lutar contra quem sou. E não é desistência. É aceitação. Sou frágil? Sim, sou. Essa fragilidade me leva a momentos de intenso desespero? Sim, me leva. Essa fragilidade me atrapalha em outros instantes? Sim, me atrapalha. E muito. Mas não é só isso que ela faz. Descobri que, por ser tão sensível, tenho grande facilidade em sentir a dor do outro. Em me sensibilizar com o que vejo, o que ouço. E, exatamente por isso, em tentar fazer algo – mesmo que mínimo – diante daquilo que me incomoda e machuca.

Sei que alguns, diante disso, vão dizer que eu deveria ser forte, que eu deveria isso ou aquilo. Pra esses, sinto informar que foi-se o tempo em que eu buscava ser quem deveria ser. Hoje busco ser simplesmente quem sou. Com minhas fragilidades, minhas dores. Buscando aceitar-me, entender-me e, com isso, crescer. Distanciando-me, cada vez mais, do castelo, do foço e dos falsos acenos.

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4 pensamentos sobre “O castelo, o foço e quem realmente sou

  1. Rê, lembrei da capa da Vida Simples desse mês, que fala sobre aceitar e assumir nossas fraquezas. Me pergunto muito como foi que todos nós nos convencemos de que temos que ser fortes e perfeitos o tempo todo. E como não nos tocamos de que isso significa não ser gente de verdade. Acho mesmo estranho, curioso e triste que nossa noção de humanidade tenha sido construída a partir de uma cegueira tão grande para nós mesmos. Porque basta uma olhadinha para notar que somos, todos, feitos de forças e fraquezas..

    Beijo!

    • Rê, exatamente. Em algum ponto do percurso, a humanidade resolveu estabelecer q os bem-sucedidos eram os fortes e q esses jamais assumiam suas fraquezas. Só q somos uma moeda composto por dois lados: fraquezas e forças e, como falo no texto, tantas vezes o q nos enfraquece, de certa forma, nos fortalece em algum aspecto. Ah, vou dar uma olhada na Vida Simples! Bju!

  2. Só quem já se jogou da janela de um castelo lúgubre sabe dizer o quanto enfrentar-se a si mesmo é o maior ato de bravura. Nada demonstra mais força do que aprender a conviver consigo, seus defeitos, seus traumas, dores e encontrar, sozinho, a resposta para sobreviver a cada uma de suas próprias nuances. Ser forte é descobrir-se e aprender, primeiro, a viver com você mesmo. Been there. Done that.

    • Exatamente, Lê! Ser forte é ter a coragem de olhar-se no espelho e dizer: esse sou eu e é com ele q tenho q viver! :*

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