Duas versões, uma escolha

Você deveria ser alto, engraçado e bem-sucedido. Eu deveria ser mais aberta, bem-humorada e magra. Ele deveria ter o cabelo liso, a pele morena e os olhos claros. Ela deveria ser uma boa mãe, ter um casamento espetacular e ainda ter tempo pra se cuidar. Todos, enfim, deveríamos ser alguma coisa que, provavelmente, não somos.

Os comerciais nos dizem que deveríamos ter aquela família perfeita de propaganda de margarina. Também dizem que deveríamos ter o carro x, a bolsa y, o creme dental z. As revistas afirmam que deveríamos ter um relacionamento de tal maneira. Os filmes nos mostram que deveríamos viver assim ou assado. As novelas jogam na nossa cara que todos deveríamos ser do núcleo rico ou, quem sabe, do núcleo do Leblon. Nossos amigos ficam, mesmo que disfarçadamente, nos lembrando que deveríamos ser dessa e daquela maneira. Nossa família, que nos conhece muito bem, nos empurra rumo aquilo que acha que deveríamos fazer.

E lá vamos nós correndo atrás daquilo que deveríamos ser. Sem parar pra pensar que isso nos torna, no máximo, cópias fajutas de nós mesmos. Jamais a nossa melhor versão. Lá vamos nós correr atrás daquilo que achamos que deveríamos ser, que outros dizem que deveríamos ser, sem nos perguntar se é isso mesmo que somos.

Assim, quem é você? Antes de tentar responder, respire fundo. Não estou perguntando quem você deveria ser. Mas quem você é. Você é introvertido, calado, meticuloso? Ou você é extrovertido, falante e muito desligado? Você gosta de rotina ou prefere o caos? Você ama livros, filmes e discos ou não curte nada disso? Você prefere estar sozinho ou você ama andar acompanhado? Quem é você?

Durante um bom tempo pensei que fosse daquelas pessoas que odiavam rotina, afinal, sou publicitária. Gosto do novo, do movimento. E isso não combina com rotina, certo? Pensei, durante muitos anos, que eu deveria ser uma pessoa avessa à rotina. Até que descobri que sou exatamente o contrário: sou uma pessoa que, dado o caos que é a minha vida profissional, se sente segura e bem quando tem uma rotina mínima a seguir.

Quando aceitei quem eu sou e não fiquei correndo atrás de tentar ser quem eu achava que deveria ser, ao menos nesse ponto, consegui deixar em ordem algumas coisas. E consegui melhorar minha vida por finalmente colocar meu amor pela rotina para trabalhar em meu favor. Ou seja, deixei de ser uma versão falsificada de mim mesma, deixei de tentar fazer de conta que era alguém que nunca fui pra melhorar quem eu realmente era.

Fora que, quando fiz isso, foquei minha energia naquilo que era realmente importante, sem gastá-la naquilo que eu achava que deveria ser importante. Enfim, diminuí o cansaço, ao menos nesse quesito, e aumentei  a satisfação.

Quem eu sou x quem eu deveria ser. O tempo todo você e eu somos forçados a escolher entre essas duas versões. E é a nossa escolha que determina nosso grau de satisfação, de aceitação. É ela quem determina também se vamos avançar e crescer, ou se vamos continuar no mesmo ponto, fazendo de conta que somos algo que não fomos criados pra ser.

E aí, o que você vai escolher?

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10 pensamentos sobre “Duas versões, uma escolha


  1. Acho que vc sabe o quanto eu já fiquei perdida nessas duas questões e o pior, quem me impunha isso ou aquilo era eu mesma.
    Até eu entender meus limites. Até eu aceitar meus limites e a mim e olha, isso não tem preço.

    Amei o texto. Bj

    • A gente precisa entender, de uma vez por todas, q não “deve” ser nada. A gente só precisa descobrir quem é de verdade (tá q não é fácil, mas vale o esforço) e viver sendo a gente mesmo. Sem falsos eu, sem eus q deveríamos ser… 😉

  2. Nossa, Rê, que texto maravilhoso. Adorei cada palavrinha dele e quero guardá-lo sempre à vista.

    Lendo, lembrei de uma provocação que minha terapeuta já me fez e que acho que tem a ver com isso: aquilo que dizemos que somos, tanto quanto o que achamos que deveríamos ser, pode se tornar uma prisão. Porque ao mesmo tempo que é legal se assumir como se é, se dar um rótulo, por mais autêntico que ele seja, pode gerar uma sensação de que aquilo é definitivo e imutável. Então sim, acho que temos que ser o que somos, mas dando espaço para enxergar as mudanças que esse mesmo “eu autêntico” quer construir.
    Fácil dizer, mas: como esse equilíbrio é difícil, né?

    Beijão!

    • Nem me fala, Rê! Mas adorei a imagem q a Caty colocou ali: a do mosaico. Temos uma base pra montá-lo, claro, q é a nossa essência. Mas o restante das peças a gente vai juntando pelo caminho. Sem pressa, com calma, sem dever ter q juntar. Apenas fazendo se quiser e qndo quiser, né? 😉

  3. “A gente precisa entender, de uma vez por todas, q não “deve” ser nada.”
    Essa foi a melhor frase do texto, o grande pulo do gato! 🙂
    Acho autodefinições um perigo, sabia? É como se fossemos controlados por uma lista de qualidades e/ou defeitos e passássemos a vida inteira cobrando de nós mesmos o cumprimento daquela lista, ítem por ítem, pq se faltar alguma coisa eu deixo de ser eu. Fui confusa ou deu pra entender? rsss
    Pq é tão necessário e urgente saber quem eu sou? Pq não posso ir vivendo dia após dia com a liberdade deliciosa de me renovar e experimentar a vida nas diversas formas em que se apresenta? Pq eu preciso me definir como uma pessoa assim e assado?
    Acredito, sim, que existe em cada um de nós uma essência imutável. O resto é ir vivendo, experimentando e se permitindo mudar quando e o quanto quiser.
    Se pensarmos em um mosaico, por exemplo, ele é feito de pequeninos pedaços que vão se juntando e formando uma bela imagem. Acredito que podemos ser assim, como um mosaico, pedacinhos que nos definem ao longo da vida e formam um ser humano inteiro e completo. Acho que assim é mais leve, mais a minha cara de levar a vida. O resto é pesado demais, não vale a pena, rs.

    Bjosss =***

    p.s.: lembrei de um trabalho que fiz no seminário sobre subjetividade humana e fala mais ou menos desse tema que vc abordou, vou procurar e postar pra vc ler. =)

    • Caty, vou ficar esperando o trabalho. Quero ler com certeza!

      Adorei a ideia do mosaico e concordo plenamente com vc. O segredo, ao meu ver, é a gente ir descobrindo os pedacinhos da gente pelo caminho e ir montando a peça q, no final, seremos nós mesmos!

      :*

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