Mosaicos ambulantes

Uma das coisas mais gostosas de ter um blog é a interação. É uma delícia ver o que cada um dos leitores pensa sobre determinado texto postado, a maneira como ele o impactou. E, melhor ainda, é ver uma ideia expressa num post ter continuidade nos comentários.

Foi assim com o texto de ontem. E o comentário da Caty foi tão, mas tão bacana, que achei que deveria dar continuidade ao post e ao comentário por aqui. Então, apertem os cintos que lá vamos nós rumo ao que somos (e não ao que deveríamos ser).

Diz a Caty que, na verdade, o que somos é construído ao longo do caminho, como um mosaico. E, exatamente como essa obra de arte, temos uma essência que, penso eu, seria a base onde encaixamos cada uma das pecinhas daquilo que nos constrói.

Não é lindo imaginar isso? Quando se começa um mosaico pode-se até ter em mente uma figura, uma ilustração que se deseja obter. Mas, como cada peça que o constitui é única, singular, o resultado final é sempre surpreendente.

Diariamente andamos por aí encaixando pecinhas em nossa obra de arte particular. Naqueles dias em que estamos com os olhos mais apurados, o coração mais aberto e a alma mais atenta, acrescentamos verdadeiras pedras preciosas ao nosso trabalho. Já naqueles dias de céu cinza e alma idem, se encontramos algumas pecinhas, nem sempre são as mais bonitas. Mas elas não deixam de ser acrescentadas nem de ter a sua importância naquilo que estamos construindo.

E de pecinha, em pecinha, vamos formando aquilo que somos. Se nos enxergamos como obra de arte em construção, aceitamos que é isso que somos: um trabalho que se forma ao longo do tempo. Vagarosamente, lentamente. Se, no entanto, nos prendemos aquilo que achamos que devemos ser, interrompemos todo o processo criativo e ficamos em busca da peça que achamos ser ideal, do desenho que acreditamos mais bonito. Com isso, perdemos tempo, gastamos energia e, muito provavelmente, não nos atentamos praquelas pecinhas que fariam toda a diferença no todo – mesmo que, individualmente, elas pareçam ser tão insignificantes.

Gaudí foi um mestre das grandes obras de arte construídas tendo como base os mosaicos. Seus trabalhos encantam todos que tem contato com eles. Não há como passar imune às explosões de cores, formas e detalhes riquíssimos de suas obras. E, exatamente por serem feitas a partir de mosaicos, são únicas, singulares. Apesar de imperfeitas.

Exatamente como você e eu. Pessoas únicas, singulares. E imperfeitas sim. Mas nem por isso, menos obras de arte!

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Duas versões, uma escolha

Você deveria ser alto, engraçado e bem-sucedido. Eu deveria ser mais aberta, bem-humorada e magra. Ele deveria ter o cabelo liso, a pele morena e os olhos claros. Ela deveria ser uma boa mãe, ter um casamento espetacular e ainda ter tempo pra se cuidar. Todos, enfim, deveríamos ser alguma coisa que, provavelmente, não somos.

Os comerciais nos dizem que deveríamos ter aquela família perfeita de propaganda de margarina. Também dizem que deveríamos ter o carro x, a bolsa y, o creme dental z. As revistas afirmam que deveríamos ter um relacionamento de tal maneira. Os filmes nos mostram que deveríamos viver assim ou assado. As novelas jogam na nossa cara que todos deveríamos ser do núcleo rico ou, quem sabe, do núcleo do Leblon. Nossos amigos ficam, mesmo que disfarçadamente, nos lembrando que deveríamos ser dessa e daquela maneira. Nossa família, que nos conhece muito bem, nos empurra rumo aquilo que acha que deveríamos fazer.

E lá vamos nós correndo atrás daquilo que deveríamos ser. Sem parar pra pensar que isso nos torna, no máximo, cópias fajutas de nós mesmos. Jamais a nossa melhor versão. Lá vamos nós correr atrás daquilo que achamos que deveríamos ser, que outros dizem que deveríamos ser, sem nos perguntar se é isso mesmo que somos.

Assim, quem é você? Antes de tentar responder, respire fundo. Não estou perguntando quem você deveria ser. Mas quem você é. Você é introvertido, calado, meticuloso? Ou você é extrovertido, falante e muito desligado? Você gosta de rotina ou prefere o caos? Você ama livros, filmes e discos ou não curte nada disso? Você prefere estar sozinho ou você ama andar acompanhado? Quem é você?

Durante um bom tempo pensei que fosse daquelas pessoas que odiavam rotina, afinal, sou publicitária. Gosto do novo, do movimento. E isso não combina com rotina, certo? Pensei, durante muitos anos, que eu deveria ser uma pessoa avessa à rotina. Até que descobri que sou exatamente o contrário: sou uma pessoa que, dado o caos que é a minha vida profissional, se sente segura e bem quando tem uma rotina mínima a seguir.

Quando aceitei quem eu sou e não fiquei correndo atrás de tentar ser quem eu achava que deveria ser, ao menos nesse ponto, consegui deixar em ordem algumas coisas. E consegui melhorar minha vida por finalmente colocar meu amor pela rotina para trabalhar em meu favor. Ou seja, deixei de ser uma versão falsificada de mim mesma, deixei de tentar fazer de conta que era alguém que nunca fui pra melhorar quem eu realmente era.

Fora que, quando fiz isso, foquei minha energia naquilo que era realmente importante, sem gastá-la naquilo que eu achava que deveria ser importante. Enfim, diminuí o cansaço, ao menos nesse quesito, e aumentei  a satisfação.

Quem eu sou x quem eu deveria ser. O tempo todo você e eu somos forçados a escolher entre essas duas versões. E é a nossa escolha que determina nosso grau de satisfação, de aceitação. É ela quem determina também se vamos avançar e crescer, ou se vamos continuar no mesmo ponto, fazendo de conta que somos algo que não fomos criados pra ser.

E aí, o que você vai escolher?

Do amor e outros demônios

Terminei, ontem à noite, de ler “Sonhei que a neve fervia”, da Fal Azevedo. Vale dizer que, no final do livro, mal enxergava as letras nele impressas. Isso porque as lágrimas, muitas, não paravam de rolar. Sim, sou dessas pessoas que se acabam de chorar durante a leitura, o que também aconteceu com a “A menina que roubava livros” (uma grata surpresa, já que o achei extremamente chato até mais da metade).

Voltando ao livro da Fal, o título de uma obra de Gabriel García Márquez o resume perfeitamente. Ele trata do “Amor e outros demônios“. Fala do ano que se sucedeu à morte do marido da autora. Mas não um marido qualquer, digamos assim. Alguém que viveu 8 intensos anos com ela, que viveu para ela. Alguém pra quem ela também viveu. Alguém que a completava de todas as formas possíveis e imagináveis e, que num dia de agosto de 2007, se foi inesperadamente.

A partir daí, vemos o desenrolar (ou não) da vida dela sendo retratado no livro. Como um diário escrito pra ele, o marido, o livro conta das miudezas, dos sentimentos, das angústias, das tristezas. E, claro, da dor. E que dor. Uma dor que não passa nunca. Uma dor que aparece na forma de outras dores (de ouvido, no corpo). Uma dor que a assombra. Uma dor que, como diz o título do García Márquez, é sim como um outro demônio, que fica o tempo todo infernizando, literalmente, a vida da autora.

Só que preciso dizer que há algo no livro que me incomoda. E antes que alguém diga que é a falta de fé da autora, de esperança e tudo mais, digo que não. Não é isso. Ainda não sei exatamente o que é, mas talvez a , que também leu o livro, possa me dizer. Enfim, quando descobrir, conto aqui.

Sonhei que a neve fervia tem seu título retirado de uma música de Chico Buarque, Outros Sonhos. E, pra terminar o post, aqui fica a música pra, quem sabe, embalar a sua leitura! 😉

Turning point

Não sei se você por um acaso já ouviu essa expressão. Mas ela, resumidamente, significa ponto de virada. Ela fala daquele momento em que você olha a estrada à sua frente e percebe que aquele não é, definitivamente, o caminho que você deseja continuar seguindo. E não importa se você vira à direita ou à esquerda, ou se simplesmente faz o retorno. O que realmente importa é que você não segue mais no mesmo sentido. E muitas vezes, sequer na mesma estrada.

E olha que você, provavelmente, já deve ter andado um bom pedaço. Talvez, você esteja nessa estrada desde que nasceu. Só que, num belo dia, você olha pra ela com olhos de estranheza. Você não se sente mais parte. Dúvidas e questionamentos começam a rondar sua cabeça. E te incomodam de tal forma que a única coisa que você consegue pensar em fazer é sair dali. E logo.

Turning points colocam a vida de cabeça pra baixo. Sacodem conceitos, valores e certezas. Trazem consigo perguntas e quase nenhuma resposta. Por significarem uma mudança radical de direção, acabam desorientando. Não se sabe mais qual o norte, qual o sul. Os pontos cardeais se perdem num emaranhado de incertas novidades. E, por mais estranho que isso pareça, em meio a tanta névoa, tanta neblina, há um cheiro doce no ar. Você não consegue ver. Mas pelo disparar do coração percebe que, finalmente, está indo pra onde deveria ir.

Quando resolvi que era hora de emagrecer, foi exatamente assim. Depois de anos fugindo da situação, entrei em uma farmácia e me pesei. Consigo me lembrar até mesmo da roupa que eu usava. E da minha cara de susto ao ver os números que a balança apontava. Eu era uma obesa mórbida. E era chegada a hora de mudar isso. Deixei pra trás uma vida de sedentarismo e de chocolate todos os dias, de desculpas esfarrapadas e comidas exageradas, e mudei. Ou melhor, estou mudando. Depois daquele dia, depois daquela virada, sigo por outra estrada. Num caminho cheio de curvas, subidas e descidas que, com certeza, é o meu lugar.

E essas viradas, por mais estranho que possa parecer, se anunciam. Parecem gritar por dentro: “tou chegando, prepare-se”! Parecem descolorir o caminho por onde andamos até aqui, tornando-o cada vez mais sem graça. Cada vez menos palatável. Parecem colocar nuvens negras num céu sempre tão brilhante. Parecem nos encher de dúvidas onde antes só havia certeza. Parecem espremer o coração, esmagar a alma. Tudo isso pra que, chegada a hora, tenhamos a coragem necessária pra simplesmente mudar o caminho e seguir.

Pelo que ando vendo por aqui, estou chegando, mais uma vez, num momento exatamente assim.

Homeopáticas

E mais um mito ruiu, ao menos no meu mundo filmístico. A combinação Johnny Depp + Tim Burton que, para mim, sempre foi sinônimo de filmes dignos de serem assistidos na telona, não funciona da maneira de sempre em “Sombras da Noite“.

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Ou melhor dizendo, não funciona da maneira de sempre para os cinéfilos. Porque a sensação que tive, ao sair do cinema, é que para os dois, ator e diretor, funcionou muito bem. Fiquei imaginando que, enquanto filmavam, os dois se divertiam horrores. E o filme realmente dá a sensação de ser um encontro de dois grandes amigos. E só.

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“Estava conversando com Tim e falei: ‘Precisamos fazer um filme de vampiros qualquer dia desses'” (Johnny Depp). 

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Depois do último post, e de uma conversa digna de terapia com a Paula (detalhe: via Facebook), cheguei a umas conclusões bem interessantes a respeito de mim mesma, do meu perfeccionismo e do que ele realmente representa (e não apenas aparenta). E posso afirmar com certeza: vem muito trabalho pela frente.

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Por indicação da Renata, comprei Sonhei que a neve fervia, de Fal Azevedo. E posso dizer: estou lendo quase a conta-gotas,  com dó de que acabe logo.

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Mas que fique claro: a leitura é para os fortes. E não conto mais nada pra não acabar com a surpresa. Comprem!

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O projeto “Mais leveza em 2012” segue firme e forte. Tive uma prova de fogo nesse final de semana e posso dizer, com orgulho, que consegui manter o foco.

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Foco. Tá complicado mantê-lo na dieta e na prática de atividades físicas. Ao menos nas duas últimas semanas, quando as corridas não fizeram parte, nenhum dia, do meu calendário.

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Endorfina. Eu preciso de.

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Falar em cansaço é chover no molhado por essas bandas.

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Fim de partida“, de Samuel Beckett, não é leitura das mais fáceis. Nem das mais agradáveis. Mas, mesmo assim, abriu meu apetite pelo autor e já estou louca pra ler “Esperando Godot“.

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Pra finalizar, dica gastronômica: cachapa venezuelana. Que meu personal e minha nutri não leiam isso, mas é comer e lamber os beiços (como a gente diz por essas bandas de cá)!

Uma dose extra de leveza

Ontem, depois de uma conversa deliciosa com a Paula, cheguei em casa com uma decisão em mente: preciso colocar uma dose extra de leveza em algumas áreas da minha vida. E isso, pra já.

Como eu brinco com algumas pessoas (e já disse isso bem aqui), sou do tipo de gente que já nasceu velha. E, exatamente por isso, tendo a levar tudo muito a sério, tendo a ter muita responsabilidade em tudo o que faço. Não que isso seja de todo ruim, claro. Mas vamos combinar que, às vezes, é preciso soltar o nó da gravata e simplesmente tomar um belo sorvete no meio da tarde, né?

Excesso de responsabilidade esconde um mal muito maior, ao menos no meu caso. E o nome dele é perfeccionismo. Querer fazer bem algo é natural e saudável. Querer fazer exageradamente bem, se cobrando o tempo todo por isso, é perigoso e pode se tornar patológico. Antes que você já me olhe torto, não sou daquelas pessoas que numa entrevista de emprego diz que seu pior defeito é o perfeccionismo achando que está abafando. Nada disso. Sou do tipo que, nesse momento, olha pra si mesma e percebe que o perfeccionismo é algo que a está sufocando e massacrando.

Me cobro demais. Sou, definitivamente, minha pior carrasca. Preciso ter os melhores resultados (daí minha frustração com a balança no retorno à nutri), o melhor desempenho. Preciso ser a aluna mais estrelada. E isso, desde que entrei na escola, aos seis anos de idade. Agora você consegue imaginar como fico até alcançar o que me imponho? Com a ansiedade nas alturas! E o que acontece quando algo não sai como esperado? Eu me frustro na mesma medida!

Só que chega uma hora, como agora, que esse ciclo vicioso cansa. Ter que corresponder às minhas mais altas expectativas me suga MUITA energia e me deixa, tantas vezes, exausta. Então, por que não tentar uma saída alternativa?

Claro que algo que construí minha vida toda não vai simplesmente desaparecer de uma hora pra outra. Por isso, escolhi uma determinada área  como praça-teste. Vou aplicar nela aquilo que acho que pode dar certo. Vou tentar fazer dela meu ponto de leveza. E, se funcionar, vou estendendo para as demais áreas. Começo já!

Se quiser aderir a essa campanha em prol da leveza, seja bem-vindo! E vamo que vamo que a leveza nos espera!

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UPDATE: Depois de escrever esse post, fiquei pensando se não estava me expondo demais. E, sinceramente, pela primeira vez desde que comecei o blog, me senti extremamente vulnerável. Falei de algo aqui que poucas pessoas sabem (por mais que a maioria que me conhece com certeza já imaginava). Fiquei em dúvida se mesmo assim divulgava o que escrevi. E divulguei. E, ao ver o vídeo abaixo, tive a certeza de que fiz a melhor escolha!

Reclamar, a saída mais fácil

O título desse post seria um tiquim mais longo, mas fiquei com medo de assustar o incauto leitor. Assim, poupei-o, ao menos que momentaneamente, de um título que pode soar agressivo, mas não menos verdadeiro: “Reclamar, a saída mais fácil (e burra)”.

Antes que alguém atire a primeira pedra, já vou logo dizendo que esse é sim um caminho que me pego tomando muitas vezes. É, querido leitor, querida leitora, não estou apontando o gatilho de palavras apenas para você. Aponto-o para mim, sem qualquer pudor.

Já estava pensando nisso essa semana quando leio um excelente texto da Paula falando do incômodo, ou melhor, da irritação que ela sente quando as pessoas simplesmente reclamam e não fazem nada. Diz ela:

“Pode ser que eu esteja radical e rebelde demais hoje – desculpem aí, já vou tomar o meu remedinho -, mas to de saco cheio mesmo de olhar em volta e ver que as pessoas – salvo raras exceções – não conseguem enxergar que elas também são parte do problema. (…)

E que conseguem ficar ainda um pouco mais ridículas quando, além de não fazer nada, nadinha, nem mesmo PENSAR POR UM MINUTO e pelo menos fazer uma cagada consciente, ainda reclamam, criticam e ridicularizam as pessoas que estão lá investindo tempo e neurônios pra tentar melhorar alguma coisa”

Leitores inteligentes que são, vocês já perceberam que tipo de reclamação chamo de burra, né? Aquela que diz respeito a pessoas envolvidas com determinado problema e que, ao invés de se enxergarem como parte dele, e consequentemente como responsáveis também por tudo que o envolve (inclusive pela solução), simplesmente reclamam e ainda atiram pedras naqueles que estão tentando, a seu modo, resolvê-lo.

Pois é, eu também padeço desse mal muitas vezes. E essa semana me peguei nesse atalho, o da reclamação. Tava chateada com uma situação e só reclamava. Até que percebi uma movimentação de outros no sentido de resolver a danada da questão. O pior é que isso me incomodou mais ainda. Até que a ficha caiu: e se ao invés de reclamar eu simplesmente ajudasse a resolver o problema? Gênia? Não! Menos burra? Talvez!

A grande questão, minha gente, é a tal da questão da responsabilidade. Já parou pra pensar no tanto que a gente, de maneira geral, se isenta da danada? Ou melhor, do tanto que a gente já se sente responsável por “n” coisas que, quando pode, ou acha que pode, simplesmente quer que o outro se responsabilize?

Só que infelizmente, se você está no barco, qualquer que seja ele, e não assumir a responsabilidade de remar, ele não sairá do lugar. Pode gritar, pode espernear. Pode reclamar à vontade. Pode falar mal do vento, da vela. Pode falar do capitão, do timoneiro. Pode fazer piadinha com quem tá remando. Nada disso vai resolver. E nem vai te ajudar a sair do barco. Porque pra você chegar do outro lado do mar e dar um tchauzinho pra embarcação, só se jogando na água (e vamos combinar que nadar dá muito mais trabalho) ou remando.

Assim, gente querida, acho que todos concordam comigo que reclamar e cruzar os braços é mesmo uma grandissíssima de uma burrice, né não? Então, fica aqui a minha sugestão: simbora pegar no remo porque a praia tá longe! 😉