Livres palavras

Na correria, não prestou atenção no que o corpo dizia. Não tinha tempo para frescuras, pensou. Não agora que precisava entregar aquele grande projeto e que as coisas não andavam muito bem na empresa. Continuou fazendo o que era preciso. Ou quase. Pulou todas as refeições possíveis e, quando chegou em casa, quase na manhã do outro dia, só conseguia pensar na cama. E foi lá que desabou.

Quando acordou, com o sol alto, não teve forças para se mexer. Pensou em gripe, escolheu exaustão. Era mais uma crise de estafa. Nada novo para a vida que levava. Só que dessa vez, percebeu algo diferente. Vermelhidão em algumas partes do corpo. De frente para o espelho, teve a sensação de que algumas das manchas tinham formas conhecidas. De que seria? De nada, repetiu pra si mesma. Mais uma vez sua cabeça lhe pregava peças.

Arrastando-se, conseguiu chegar ao trabalho. Pela cara dos colegas, sabia que não estava bem. Mas o que podia fazer? Era preciso produzir. Produzir era o seu lema. Percebeu que a coisa ia realmente mal quando seu chefe, ao vê-la, ordenou que procurasse imediatamente um médico. E que só aparecesse depois que estivesse bem. E bem de verdade.

Sabia que não havia necessidade pra tanto alarde. Em casa, ligou o computador e trabalhou o quanto pôde. Não seria uma doencinha que atrapalharia seu cronograma. Sem contar que as atividades continuariam lá quando ela voltasse. Assim, nada melhor do que adiantar o que pudesse. E foi o que fez. Até que os olhos começaram a embaçar e, por segundos, ela teve a sensação de que delirava. E via por todo o seu corpo escritas palavras.

Coçou os olhos. Era cansaço, era estafa. Enfim, não era nada. De qualquer forma, achou melhor não abusar. Deitou-se. Mas não conseguia dormir. Sentia o corpo formigar. Sentia o corpo coçar. E quando deu por si, em sua pele dançavam palavras.

Não, aquilo não era real. Não, aquilo não estava realmente acontecendo. Era preciso agir e rápido. E a melhor solução não estava num clínico geral. Estava mesmo em um bom psiquiatra. Porque além de cansada, agora estava louca.

Irrompeu no consultório, assustando médico e paciente. Sem delongas, expulsou a moça que, no divã, ainda contava suas mazelas. Sentia muito, mas seu caso era grave e urgente. Que voltasse depois. Antes que o médico pudesse dizer qualquer coisa, foi logo tirando a roupa. E mostrando o que acreditava serem ilusões.

Ele sorriu. Também as enxergava. Também podia vê-las. E elas, as palavras, dançavam por todo o corpo dela. Após observar, por alguns minutos, o espetáculo, ele anunciou: Síndrome da Palavra Reprimida.

Síndrome da Palavra Reprimida? Que diabos seria aquilo? Ou melhor: remédio. Que remédio tomar? Pacientemente, o psiquiatra rabiscou algumas palavras e lhe entregou o receituário. E ela, satisfeita com o que tinha em mãos, saiu correndo em direção à primeira farmácia que encontrou pelo caminho.

Só que o farmacêutico parecia não entender as letras do médico e devolveu o receituário. Acostumada com a incompetência alheia, recebeu o papel e preparou-se para ler. E o fez. E as palavras no corpo dançaram freneticamente. A tal ponto de fazê-la cair sentada no chão. E dos seus olhos caíram lágrimas. E da sua boca, soluços. E não havia nada que acalmasse as palavras em seu corpo. E o que estava escrito no receituário? O que lhe indicara o médico? Que finalmente era hora de libertar a poesia que vivia dentro dela.

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