Em fuga

Não havia tempo a perder. Agora que estava decidida, era preciso correr. Lançando a mala sob a cama, jogou dentro tudo o que conseguia pegar. Não podia dar-se ao luxo de dobrar as roupas, guardar os sapatos separadamente, escolher as bijuterias. A ordem era simplesmente pegar o que conseguisse e colocar o pé na estrada.

Ao perceber que a mala estava cheia, fechou-a. Não sem dificuldade, claro. Mas o que era esse pequeno obstáculo perto do que logo enfrentaria? Antes de sair, olhou-se no espelho. Mal se reconhecia. Por mais que houvesse coragem, reconheceu impregnado em si o medo. O que temia? Do que realmente fugia?

Antes que se apegasse a outras divagações, saiu correndo. Estava decidida e ponto final. Era preciso fugir. E rápido. E logo. E agora. Com a mala em mãos, saiu correndo. Corria tanto e tão rápido, que a respiração chegava a falhar. Mas não podia se preocupar com isso. Não agora. Não naquele momento.

Apesar de tentar focar apenas na corrida, seus olhos desviavam-se para o caminho. Tinha a sensação de que conhecia todos os lugares por onde passava. Não, não pode ser, repetia pra si mesma. Estava correndo há horas e já devia estar bem longe de casa. Mas seus olhos insistiam que sim, ela estava nos mesmos lugares de sempre. Na mesma vizinhança de ontem, anteontem e por aí vai.

Não, não podia ser. E não era. Por mais louco que parecesse, decidiu correr de olhos fechados. Se eles a estavam enganando, agora era ela quem os iria enganar. Sorriu. Quando menos esperasse, estaria bem longe. Estaria em qualquer outro lugar que não lhe fosse familiar.

E correu. E correu. Como nunca. E correu. E correu. Sem parar, sem descansar. E correu. E correu. Sem saber pra onde ia, sem saber quando chegar. Até que, exausta, resolveu abrir os olhos. E simplesmente desabou.

E chorou. E chorou. Como nunca. E chorou. E chorou. Sem parar, sem descansar. E chorou. E chorou. Ao perceber que estava exatamente no ponto de partida. E chorou. E chorou. Ao ver-se dentro do próprio quarto. E chorou. E chorou. E chorou mais uma vez. Até que finalmente entendeu de quem estava tentando fugir: de si mesma. Só que essa, infelizmente, encontraria sempre onde quer que fosse.

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