Pela real beleza

Pegando carona no título da campanha de Dove, acho mesmo que deveríamos, todos nós, abraçar uma campanha pelo embelezamento do mundo de uma maneira geral. E isso sem o uso de photoshop ou outros programas de manipulação de imagens. Sem o uso de bisturis ou quaisquer outras intervenções estéticas. Sem o uso de produtos de beleza ou mesmo de maquiagem.

Como isso se daria? De uma maneira bastante eficiente: através da felicidade. Já percebeu que quando você está feliz as pessoas geralmente elogiam a sua beleza? É uma associação quase imediata: basta observarmos alguém realmente feliz pra sermos atraídos pra beleza dessa pessoa.

É, querido leitor, felicidade embeleza. Chocado com essa revelação? Mais chocado você vai ficar quando eu disser que essa constatação é muito, muito antiga. Salomão, sim, o rei Salomão, já dizia que o coração feliz deixa o rosto ainda bonito (Provérbios 15.13). Ou seja, há milênios a humanidade sabe disso.

Mas saber, como eu já escrevi por aqui, não quer dizer colocar em prática (infelizmente). E lá vamos nós atrás de paliativos, procurando resolver a consequência sem dar muita bola pra causa. É lá vai a dona infelicidade enfeiando muita gente.

Ser feliz não é simples. Eu sei. Nem é algo fácil de conseguir. Mas como tudo na vida, é uma questão de colocar como prioridade e correr atrás. Não dá pra ser feliz por completo? Ok, então tente ter momentos felizes ao longo do dia! É bem a propaganda do Pão de Açúcar: o que faz você feliz? Faça-se essa pergunta várias vezes e, à medida que encontrar as respostas, procure um meio de chegar a elas.

E lembre-se: sendo feliz você ainda leva de brinde um rosto lindo. De uma beleza que não existe nada que possa apagar! 🙂

Crônicas de uma dieta anunciada

E daí que março resolveu se redimir exatamente em sua última semana. Ou melhor dizendo, eu resolvi me redimir exatamente na última semana do mês. E o que ganhei em troca? Na verdade, perdi. Depois de um longo e tenebroso inverno dietístico, perdi 3,5 kg em uma semana!

Antes que você já me imagine fazendo a dieta da sopa, da proteína ou vivendo a base de água de coco, passando meus dias como um verdadeiro faquir, gostaria de dizer que a única coisa que fiz foi não abrir concessões. Segui a dieta à risca, fiz atividades físicas moderadas e tentei descansar o máximo que pude. O resultado taí: perdi 3,5 kg e ganhei uma satisfação que literalmente não tem preço!

E, antes que alguém reclame, já vou avisando: dietas também passam a integrar a pauta do Inventário. Por mais que isso não estivesse no script inicial, resolvi compartilhar por aqui minhas lutas, sucessos e fracassos nesse trajeto pra me lembrar, sempre, que perdas e ganhos fazem parte do processo. E que se cheguei até aqui, posso chegar ainda mais longe.

Os próximos passos nessa jornada são um pouco audaciosos. E incluem uma corridinha básica de 21km, em setembro, logo ali em Buenos Aires. Mas essa é uma história pra um próximo post. Por hora, vou comemorar as perdas (e os ganhos) da semana!

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Pros curiosos de plantão, vou contar como funciona minha dieta:

– café da manhã: 1 fatia de pão integral com 1 colher de requeijão light, 1 fatia fina de mussarela e 2 fatias de blanquet de peru + 1 copo de suco de uva integral

– lanche: 1 barra de cereal

– almoço: 3 colheres de sopa de arroz integral + 2 colheres de sopa de feijão + 1 filet de frango ou peixe + salada crua + vegetais cozidos

– lanche: bolacha integral ou cream cracker + café com adoçante

– jantar: salada + proteína

– ceia: suco ou fruta

Como vocês podem ver, não existe nada de muito restritivo. O segredo é comer diretinho, queimar calorias e, claro, tentar viver sem concessões!

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Relendo o post, queria reforçar algo que faz toda a diferença na minha dieta: o descanso. Na verdade, faz diferença na vida de toda e qualquer pessoa que busca perder peso. Explicando melhor: você já ouviu falar no cortisol? O cortisol é um hormônio liberado na corrente sanguínea quando estamos estressados e/ou muito cansados. E ele tem um efeitinho colateral: dificulta o processo de emagrecimento.

Ou seja, pra emagrecer não basta comer menos, praticar atividade física, se reeducar. É preciso ficar de olho também no nível de stress e ansiedade. Tá pensando que é fácil? Mas não é impossível, é sempre bom lembrar!

Livres palavras

Na correria, não prestou atenção no que o corpo dizia. Não tinha tempo para frescuras, pensou. Não agora que precisava entregar aquele grande projeto e que as coisas não andavam muito bem na empresa. Continuou fazendo o que era preciso. Ou quase. Pulou todas as refeições possíveis e, quando chegou em casa, quase na manhã do outro dia, só conseguia pensar na cama. E foi lá que desabou.

Quando acordou, com o sol alto, não teve forças para se mexer. Pensou em gripe, escolheu exaustão. Era mais uma crise de estafa. Nada novo para a vida que levava. Só que dessa vez, percebeu algo diferente. Vermelhidão em algumas partes do corpo. De frente para o espelho, teve a sensação de que algumas das manchas tinham formas conhecidas. De que seria? De nada, repetiu pra si mesma. Mais uma vez sua cabeça lhe pregava peças.

Arrastando-se, conseguiu chegar ao trabalho. Pela cara dos colegas, sabia que não estava bem. Mas o que podia fazer? Era preciso produzir. Produzir era o seu lema. Percebeu que a coisa ia realmente mal quando seu chefe, ao vê-la, ordenou que procurasse imediatamente um médico. E que só aparecesse depois que estivesse bem. E bem de verdade.

Sabia que não havia necessidade pra tanto alarde. Em casa, ligou o computador e trabalhou o quanto pôde. Não seria uma doencinha que atrapalharia seu cronograma. Sem contar que as atividades continuariam lá quando ela voltasse. Assim, nada melhor do que adiantar o que pudesse. E foi o que fez. Até que os olhos começaram a embaçar e, por segundos, ela teve a sensação de que delirava. E via por todo o seu corpo escritas palavras.

Coçou os olhos. Era cansaço, era estafa. Enfim, não era nada. De qualquer forma, achou melhor não abusar. Deitou-se. Mas não conseguia dormir. Sentia o corpo formigar. Sentia o corpo coçar. E quando deu por si, em sua pele dançavam palavras.

Não, aquilo não era real. Não, aquilo não estava realmente acontecendo. Era preciso agir e rápido. E a melhor solução não estava num clínico geral. Estava mesmo em um bom psiquiatra. Porque além de cansada, agora estava louca.

Irrompeu no consultório, assustando médico e paciente. Sem delongas, expulsou a moça que, no divã, ainda contava suas mazelas. Sentia muito, mas seu caso era grave e urgente. Que voltasse depois. Antes que o médico pudesse dizer qualquer coisa, foi logo tirando a roupa. E mostrando o que acreditava serem ilusões.

Ele sorriu. Também as enxergava. Também podia vê-las. E elas, as palavras, dançavam por todo o corpo dela. Após observar, por alguns minutos, o espetáculo, ele anunciou: Síndrome da Palavra Reprimida.

Síndrome da Palavra Reprimida? Que diabos seria aquilo? Ou melhor: remédio. Que remédio tomar? Pacientemente, o psiquiatra rabiscou algumas palavras e lhe entregou o receituário. E ela, satisfeita com o que tinha em mãos, saiu correndo em direção à primeira farmácia que encontrou pelo caminho.

Só que o farmacêutico parecia não entender as letras do médico e devolveu o receituário. Acostumada com a incompetência alheia, recebeu o papel e preparou-se para ler. E o fez. E as palavras no corpo dançaram freneticamente. A tal ponto de fazê-la cair sentada no chão. E dos seus olhos caíram lágrimas. E da sua boca, soluços. E não havia nada que acalmasse as palavras em seu corpo. E o que estava escrito no receituário? O que lhe indicara o médico? Que finalmente era hora de libertar a poesia que vivia dentro dela.

Perdas e ganhos

Desde que ouvi o podcast da Rosana Hermann sobre esse tema, lá no Querido Leitor, fiquei com isso na cabeça. Ela fez algumas colocações tão interessantes sobre perder e ganhar que foi impossível não me identificar e pensar: “Uau, como eu não percebi isso antes?”

Resumidamente, ela diz que naturalmente não gostamos de perder. Que de maneira geral, nosso cérebro é condicionado a ver todas as perdas como algo ruim. E, pra quem tem a real necessidade de perder algo, como peso, isso pode ser algo bem complicado (como é o meu caso e o dela também).

Fora que a vida também é feita de perdas! São amigos que se vão (não necessariamente que morrem, mas que simplesmente se afastam de nós), são relacionamentos rompidos, empregos perdidos, oportunidades que deixamos ir. E lá vai o nosso cérebro entrar em parafuso por conta de tantas coisas que se vão. E lá vamos nós nos sentir frustrados, entristecidos e, quantas vezes, emburrados com tudo isso!

Só que normalmente as perdas implicam em ganhos. Podem até não ser exatamente consecutivos, mas creia, eles acontecem. Se eu perco peso, ganho qualidade de vida. Se eu perco um amigo, abro oportunidade para novas amizades. Se eu perco um emprego, ganho a possibilidade de reavaliar a vida profissional. E se não ganho nada palpável, digamos assim, ganho a possibilidade de amadurecer – o que, convenhamos, é algo muito bacana!

Assim, o grande pulo do gato é a gente conseguir mostrar pro próprio cérebro que as perdas não são ruins. Pelo contrário. Elas abrem espaço para os ganhos. E isso vale pras mínimas coisas. Por exemplo, muita gente me pergunta como eu consigo preferir uma salada a algo bem engordativo e calórico. Em outras palavras, me perguntam como posso perder algo delicioso. Só que pra mim, não é perda. É ganho. Eu ganho um sorrisão no rosto quando escolho a salada.

Exatamente como quem está prestando concurso. Essa pessoa não está perdendo horas de sono. Ela está ganhando tempo e correndo atrás daquilo que ela realmente quer. Tem também aquele que está poupando pra um grande sonho. Ele não está deixando de viver ou perdendo o melhor da vida. Ele está ganhando aquilo que tanto sonhou.

Claro que esse é um processo de desconstruir e reconstruir o tempo todo. E isso demanda tempo e esforço. Mas acredite, a gente ganha bem mais do que perde! 😉

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Quem ficou curioso pra ouvir o podcast, aqui vai ele:

Sem concessões

Pergunte pra qualquer pessoa envolvida num processo de emagrecimento o que realmente leva a vaca pro brejo que, de maneira praticamente unânime, a resposta que você ouvirá será: o “me permitir”. Ou, em outras palavras, as tais das concessões.

A pessoa faz a dieta certinha a semana inteira, mas numa sexta-feira à noite, chegando cansada em casa, se permite pedir uma pizza bem gordurosa. Ou ainda, a pessoa consegue resistir bravamente a todos os petiscos da festinha infantil, mas quando chega em casa, para comemorar tamanha perseverança, se permite um verdadeiro afogamento num pote de sorvete.

Só que concessões não são exclusividade de quem está de dieta. Elas não batem à porta apenas daqueles que lutam contra a balança. Elas se insinuam, o tempo todo, pra todos nós. Elas jogam charme, usam de toda a malemolência que lhes é peculiar para que, naqueles momentos de desatenção, simplesmente caiamos em sua teia!

Você acorda decidido a ser feliz e ponto. Nada pode detê-lo. Nada vai tirar o sorriso do seu rosto. Mas o dia passa. As horas se arrastam. E seu chefe, que nada sabe sobre sua decisão, simplesmente joga um caminhão de responsabilidades e reclamações sobre as suas costas. Vendo toda a situação, você diz pra si mesmo: “Ah, é só uma tristezinha! E eu nem tenho como evitá-la!” E lá vai você, abrir a porta pra tristeza entrar. E se instalar!

Ou ainda, seu grande sonho é fazer aquela viagem internacional. E, decididamente, esse ano, ela sai do papel. Fazendo as contas, você sabe que é preciso apertar o orçamento e não abrir concessões. Não vai ser o fim do mundo, mas alguns luxos serão cortados. Mas tudo em nome de um sonho! Só que os meses passam e aquele Iphone não sai da cabeça. Toda vez que você passa em frente à loja, tem a sensação de que ele dança pra você. E, num belo dia, você não resiste e se permite comprá-lo! E lá vai sua viagem bater asas e acontecer só no ano que vem.

E o mais engraçado, em relação às concessões, é o quanto somos negligentes com seus efeitos. É um tal de “ah, só um bombonzinho não tem problema!”, ou “são só quinze reais mesmo, que diferença faz?” ou ainda “é só uma paradinha, daqui a pouco volto ao ritmo normal”. E de concessão em concessão, lá vai a vaca pro brejo! E lá vai nosso humor junto com ela! E lá vão nossos sonhos, nossos projetos, nossos alvos, pra cada vez mais longe de cada um de nós!

Assim, nessa semana, imponha-se um desafio: foque naquilo que você deseja e não abra mão disso. Pode ser chato, pode ser cansativo, pode ser pesado, mas lembre-se: a chatice do agora é garantia do sorrisão, da satisfação, de amanhã! Não abra concessões! Persevere!

E eu suspiro!

A pele que há em mim (Quando o dia entardeceu)
Márcia

Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu

E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo do meu
Uma trança arrancou
E o sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu

Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.

Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou.

Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei
Para lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
Para voltar a viver
Já não sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber.

Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada.
O quarto vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Quando enfim se cala

Em fuga

Não havia tempo a perder. Agora que estava decidida, era preciso correr. Lançando a mala sob a cama, jogou dentro tudo o que conseguia pegar. Não podia dar-se ao luxo de dobrar as roupas, guardar os sapatos separadamente, escolher as bijuterias. A ordem era simplesmente pegar o que conseguisse e colocar o pé na estrada.

Ao perceber que a mala estava cheia, fechou-a. Não sem dificuldade, claro. Mas o que era esse pequeno obstáculo perto do que logo enfrentaria? Antes de sair, olhou-se no espelho. Mal se reconhecia. Por mais que houvesse coragem, reconheceu impregnado em si o medo. O que temia? Do que realmente fugia?

Antes que se apegasse a outras divagações, saiu correndo. Estava decidida e ponto final. Era preciso fugir. E rápido. E logo. E agora. Com a mala em mãos, saiu correndo. Corria tanto e tão rápido, que a respiração chegava a falhar. Mas não podia se preocupar com isso. Não agora. Não naquele momento.

Apesar de tentar focar apenas na corrida, seus olhos desviavam-se para o caminho. Tinha a sensação de que conhecia todos os lugares por onde passava. Não, não pode ser, repetia pra si mesma. Estava correndo há horas e já devia estar bem longe de casa. Mas seus olhos insistiam que sim, ela estava nos mesmos lugares de sempre. Na mesma vizinhança de ontem, anteontem e por aí vai.

Não, não podia ser. E não era. Por mais louco que parecesse, decidiu correr de olhos fechados. Se eles a estavam enganando, agora era ela quem os iria enganar. Sorriu. Quando menos esperasse, estaria bem longe. Estaria em qualquer outro lugar que não lhe fosse familiar.

E correu. E correu. Como nunca. E correu. E correu. Sem parar, sem descansar. E correu. E correu. Sem saber pra onde ia, sem saber quando chegar. Até que, exausta, resolveu abrir os olhos. E simplesmente desabou.

E chorou. E chorou. Como nunca. E chorou. E chorou. Sem parar, sem descansar. E chorou. E chorou. Ao perceber que estava exatamente no ponto de partida. E chorou. E chorou. Ao ver-se dentro do próprio quarto. E chorou. E chorou. E chorou mais uma vez. Até que finalmente entendeu de quem estava tentando fugir: de si mesma. Só que essa, infelizmente, encontraria sempre onde quer que fosse.