Um conto leve

Enquanto os créditos finais subiam e as luzes se acendiam, a multidão saía silenciosa do cinema. Nenhum rumor, nenhuma palavra. Pude ouvir apenas os passos e, mesmo assim, tive a sensação de que todos evitavam pisar mais firme. Um ou outro suspiro marcava a saída e nada mais. A película tinha sido mais que um filme. Fora uma experiência de vida. Do tipo de filme que não se assiste apenas com os olhos, mas com a pele. Definitivamente ninguém saiu da sala como entrou. E, olhando em volta, percebi que havia alguém que parecia nem querer sair.

Diante de tamanho silêncio, vê-lo ali, sozinho, olhando para a tela em branco, não parecia algo tão estranho assim. Só causava certo incômodo porque enquanto todos se organizavam para sair do ambiente, ele aparentava agarrar-se àquela experiência o máximo que pudesse. Simplesmente desprezava o movimento de saída. Para ele, observei,  os créditos finais ainda eram parte do filme.

Não pude ficar alheio àquilo. Não depois de assistir a um filme tão belo. Quando resolvi voltar e ver o que realmente acontecia com ele, um homenzarrão passou por mim como um caminhão desgovernado. Calma no Brasil! Pensei comigo. Para meu espanto, o gigante parou ao lado da única poltrona ainda ocupada. Minha aflição se transformou em completo desespero. Não sabia se procurava um segurança ou se tomava partido do entrevero que poderia se iniciar.

A cena era bíblica: um Golias agachado, resignadamente conversando com um frágil Davi, que deveria ter algo como 90 anos. Cuidadosamente, o homenzarrão acomodou o senhor em seus braços e começou a sair da sala. Ruborizei por tê-lo julgado e por ainda estar ali, estático. Os dois passaram por mim naturalmente, como se minha presença não importasse. Ou pior, como se a postura que assumi fosse a que normalmente todos assumem.

Cabisbaixo, continuei meu caminho. Entre o cinema e o carro devem ter se passado uns 30 minutos. Não conseguia simplesmente desprezar o que estava acontecendo. Sentia que devia desculpas aos dois. No estacionamento do shopping, revi aquelas duas figuras. Não me permiti, simplesmente, entrar no carro e ir embora. Fui em direção a eles, que agora tinham uma cadeira de rodas dando mais conforto e dignidade ao velho homem. Polidamente me aproximei, falei do meu desconforto, me desculpei. O rapaz, que agora descobri ser neto, me contou brevemente sua história.

O avô sempre foi um amante das artes, principalmente, da sétima. Segundo ele, o cinema tirava a efemeridade do teatro e, por isso, o tornava eterno. Sempre frequentou os cinemas da cidade. Os filhos, os netos, os familiares, os amigos, sempre o tiveram como referência de alegria e sapiência. Mas os anos se passaram e o corpo mostrou seus limites. Já não andava, falava pouco e com dificuldade, mas enxergava e ouvia muito bem. Principalmente se levássemos em conta seu quase um século de vida. Hoje, sozinho, seria impossível dedicar-se à paixão pela sala escura. Por isso, em alguns dias da semana, o neto levava o avô nos braços e o colocava dentro da sala, para que assim continuasse vivo. Enquanto ainda conversávamos, fomos interrompidos pelo frágil Davi, que disse bem baixinho:

– Tudo o que temos… é só o que precisamos.

Não tínhamos mais o que falar. Despedimo-nos. Busquei meu carro. Meu coração estava leve de novo. Dormi uma das melhores noites de sono da minha vida. Afinal, o que tenho é só o que preciso.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

4 pensamentos sobre “Um conto leve

    • Jader, acho q quase sempre julgamos sem saber os motivos ou as reais condições q envolvem as situações… obrigada pelo comentário e pela visita! 🙂

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