A velha

Olhou-se no espelho e não se reconheceu. Exatamente como há 10 anos, quando começaram as plásticas. Naquela época, porém, as rugas tampavam o rosto que ela pensava ser o dela. Hoje, a falta delas simplesmente abre um semblante que ela não mais reconhece como seu.

Pequenas intervenções, dizia tentando convencer-se. Uma esticadinha aqui, outra ali. E lá se foram todas as marcas e com ela as lembranças dos momentos que as trouxeram à tona.

Nossa, como você está jovem, repetiam os amigos. Ah, quando eu tiver a sua idade, quero estar enxuta como você, diziam as venenosas amigas. E entre os elogios, ela simplesmente se perdia numa tentativa desesperada de encontrar-se.

Até aquele momento. Quando, num raro instante de lucidez, entendeu o inevitável: por mais que passasse o rosto a ferro, sua alma estava invariavelmente amassada. As rugas de fora se tornaram inexistentes, mas a de dentro clamavam cada vez que se olhava no espelho.

Velha, repetiu baixinho. Velha, outra vez. Velha. Velha. Velha. Até que a rua inteira conseguiu ouvi-la gritar a plenos pulmões: velha!

Lágrimas correram-lhe pelo rosto e, sem encontrar qualquer barreira natural, rapidamente empoçaram-se no chão. Sentou-se em meio a elas sem parar de repetir: velha. Teve a sensação de que iria afogar-se em tamanha dor, mas estava errada. Depois do choro, um riso descontrolado tomou conta do cômodo: velha. Velha, velha.

A palavra que antes a amedrontava, agora, pouco a pouco, a libertava. Velha. Velha, era isso o que ela era. Levantou-se e foi até o armário. Repetindo a palavra mágica, velha, foi arrancando de lá tudo o que não condizia com sua situação. Durante anos tentara fugir da palavra. Agora, finalmente, ela a encontrara.

Pilhas e mais pilhas ficaram espalhadas pelo chão. Teve a certeza de que não haveria nada ali que servisse para a sua nova condição, velha. Precisava urgentemente paramentar-se para esse novo momento. Usando apenas o roupão, desceu as escadas e tomou a rua. Enquanto um passante chamou-a de louca, ela simplesmente virou-se e disse:

– Louca, não! Velha!

Sorriu. Era a primeira vez em anos que se encontrava consigo mesma. Não aquela que vira no espelho. Mas aquela amarrotada, que habitava dentro dela. E, por mais que fosse estranho admitir para si mesma, gostara do que vira: uma velha, enfim!

***

Esse conto surgiu após a leitura desse texto aqui: Me chamem de velha, que eu sinceramente recomendo.

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