Um Carnaval de Cinzas

Antes do relógio marcar 6h ela já estava de pé. Há trinta anos todo dia era a mesma coisa: acordar, passar o café, arrumar a mesa, despertá-lo, buscar o pão e o jornal, servi-lo, levá-lo até a porta, despedir-se. Ligar a TV, assistir ao programa feminino matinal, pegar a receita de logo mais. Organizar a cozinha, a sala, os quartos, a casa, enfim. Fazer o almoço, abrir a porta com um sorriso, ajudá-lo com o terno, servi-lo. Zelar para que ele não ultrapasse os 20 minutos de soneca. Despertá-lo, levá-lo até a porta, despedir-se. Lavar e passar (nem sempre nessa ordem). Organizar meticulosamente todas as gavetas dele. Ir até a calçada e sorrir com as piadas de Dona Janota. Voltar, preparar o jantar e esperá-lo chegar. Abrir a porta (dessa vez sem sorriso) e ouvi-lo pacientemente despejar toda a insatisfação com o serviço. Servi-lo, organizar a cozinha, assistir ao telejornal com ele e à novela sozinha. Ir deitar-se sem pensar em nada sabendo exatamente como será o próximo dia.

Sábados, domingos e feriados, claro, tinham uma rotina só sua. A presença dele, em casa, a incomodava. Por mais que não trocassem mais do que poucas palavras, ele estava ali. Na sala, enquanto ela preparava o almoço. No quarto, enquanto ela organizava a casa. No quintal, enquanto ela fazia o jantar. Assim, era fácil entender a angústia dela ao perceber que o Carnaval se aproximava. Seriam 4 dias e meio com ele ali, o tempo todo. Seriam 4 dias e meio de uma incômoda presença a alterar-lhe a rotina.

E quando o sábado de Carnaval chegou, ela teve certeza de que seus temores tinham fundamento. Apesar de ter prometido a si mesma que nada mudaria, ele não havia sido comunicado dessa determinação. E lá foi ele comprar, por si mesmo, o pão e o jornal. Mal sinal, o coração dela anunciou. Mal sinal. O que começa ruim termina pior.

Quando procurou os apetrechos do café, percebeu que a garrafa estava cheia e a mesa pronta. Chocou-se. Que café delicioso! Ele retornou e trazendo o último número da revista Tricô. A perturbação pela quebra da rotina já não era o maior dos temores. Quem seria aquele homem que amanheceu em sua cama? Durante anos de casamento, ele nunca agira assim. Como sempre foi igual, ambos já estavam perfeitamente adaptados a essa condição. Já não existiam como individuos. Por mais seca e fria que parecesse a relação, eram um casal. E como casal, seus papéis estavam bem definidos. Eram engrenagens azeitadas e eficientes que ele não tinha o direito de, na primeira manhã do Carnaval, destruir

Nada foi dito. Sentaram-se em seus respectivos lugares, tomaram café. Aqueles poucos minutos pareceram eternos. O silêncio fomentou ainda mais a incredulidade dela diante dos acontecimentos. Nem percebeu que seu marido parecia mais tranquilo. Mais leve. Mais feliz. Recusou-se a se aproximar quando ele veio em sua direção. Não discutiram. Ela procurou acento no sofá onde podia assistir à TV confortavelmente. Ele a seguiu, mas buscou a janela, onde pôde acompanhar os últimos minutos do nascer do sol. Os raios da manhã deram a impressão que ele sorria discretamente, como quem estivesse satisfeito.

Ela continuava não suportando tudo aquilo. Mal esperou seu programa terminar para começar o mutirão de afazeres domésticos. Não importava se era final de semana, tampouco feriado. Precisava ocupar a cabeça e parar de pensar que seu marido estava possuído. Ele continuava silencioso e tranquilo, parecia volitar pela casa. Felizmente, por algumas horas, ela se esqueceu do incômodo que fora o início do dia. Ele deve ter saído, pensou.

Sua rotina finalmente havia retornado. Concluiu as tarefas matutinas e iniciou o almoço, desacompanhada. Confiante que seu marido chegaria pontual, como sempre, para a refeição, sentou-se e esperou. Mas ele não veio. Não apareceu. Mais uma vez a rotina foi destruída. Onde ele teria ido? Que dia! Impaciente, ia da sala à cozinha, como se esse ritual respondesse algo. Se não fosse a raiva, certamente estaria desesperada. Resolveu sair e buscar ajudar, só precisava pegar a bolsa no quarto.

Entrando no quarto, a raiva instantaneamente virou ódio. Ele estava deitado na cama, com os olhos fechados. Parecia simplesmente ter adormecido ali, sem se dar conta do que acontecia à sua volta. Ela, porém, chegou ao próprio limite. Descontrolou-se, gritou, esbravejou, chorou… e nenhuma resposta. Pensou em arremessar alguma coisa, em atingi-lo com algo mais do que palavras. Respirou fundo, tentando buscar a calma que havia perdido ao despertar.

Sentindo-se injustiçada por ser a única a incomodar-se com a quebra da rotina, chacoalhou-o. Novamente sem resposta. Outro. E mais outro. Nada. O que era ira transformou-se em furor e, pela primeira vez em trintas ano de casada, permitiu-se perder as estribeiras, esbofeteando-o. Nenhuma resposta. Com o coração palpitando, as mãos trêmulas e a cabeça cada vez mais confusa, chorou. Incontrolável. Veemente. Desesperada.

Rendendo-se, enfim, ao cansaço, deixou-se cair sobre o peito dele. Foi quando percebeu, finalmente, que sua rotina nunca mais seria a mesma. Depois de bagunçá-la naquele dia com sua presença, alterá-la-ia para sempre com sua ausência.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

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