Um conto de chuva

Era bem tarde quando saí do trabalho. Quase outro dia. Resolvi caminhar e tentar deixar a tensão pelo caminho. Em menos de uma hora estaria em casa, pronto para um banho e uma pizza fria de ontem. Minha terapia sempre funcionava.

Poucos passos e já nem me lembrava daquela extenuante jornada de 15 horas que mal acabara. Para limpar de vez os pensamentos, começa uma garoa fina que me obriga a colocar as mãos nos bolsos. Caminho displicente e desinteressado.

Vários rostos desconhecidos cruzam meu caminho pelas calçadas frias. A grande vantagem das conurbações é escolher a solidão no meio de uma turba. Sou mesmo um cosmopolita! Todos os meus amigos, antes mesmo de eu vir, já se foram e tem cheiro de ácaro e papel velho.

A poucas quadras de casa, algo me chama a atenção: um grupo de assistentes sociais conversa com um garoto. Este, só mais um dos invisíveis que moram nas ruas, sem identidade, sem perspectivas, sem amigos, só uma sombra sem corpo. Aqueles, o exército da salvação governamental que a cada dois anos sai às ruas para sua limpeza. Não sei porquê, mas só em anos pares. Mas a cena estava do avesso, o garoto se mostrava extremamente disposto à sua retirada e o grupo habilmente acalmava o choro do Capitão de Areia. Ele repetia em meio aos soluços que queria ajuda, queria sair dali, queria uma cama… mas não iria sozinho.

– Só vou quando o Maninho voltar.

O sofrimento dele me entranhou os ossos. Não consegui seguir para casa. A chuva engrossou, mas pouco me importei. Me sentia impelido a fazer algo. Me aproximei, perguntei sobre o Maninho. Vagamente me responderam… apurei que eles tinham praticamente a mesma idade, sempre estiveram juntos, um cuidava do outro e o desaparecido parecia estar doente. O menino jamais deixaria seu irmão para trás. Tentando ajudar, perguntei se sabia a que horas voltaria ou mesmo onde teria ido.

– O Maninho sempre dá uma volta nesse horário. Nem sei onde vai, mas sempre volta com alguma comida.

Dei uma olhada em volta. Pensei nos restaurantes e bares da região. Não haveria muitos abertos até aquela hora. Me dispus a acompanhar o menino em sua busca, afinal, com aquela chuva ninguém iria muito longe. Quando nos preparávamos para partir, um dos assistentes sociais segurou-me pelo braço e disse rispidamente:

– Vocês têm quinze minutos para achar o outro e voltar. Se não chegarem a tempo, vamos embora.

Caminhamos rapidamente em meio a chuva que, naquele momento, era um temporal. As gotas, espessas, machucavam a pele. O menino, mirrado, projetava a cabeça numa tentativa de cortar o vento e avançar. Se para um adulto a tempestade era torturante, para uma criança como aquela era ainda mais insuportável. Mas por seu Maninho, ele me mostrava, qualquer esforço valia a pena.

Vasculhamos a vizinhança e nada. A cada bar, a cada restaurante, a cada esquina, aumentava a aflição do menino que não se continha num choro doído e ininterrupto. Tive vontade de abraçá-lo, confortá-lo, só não sabia como. O tempo passava e a chance do menino deixar a rua era cada vez mais remota.

Olhei no relógio. Tínhamos apenas mais um minuto. Comecei a bolar uma estratagema que convencesse o menino a ir sozinho com os assistentes. Outro dia certamente se encontrariam. Maninho não ficaria chateado, afinal, estava chovendo e ele também devia ter buscado abrigo ou tentado se proteger.

Meus pensamentos foram abruptamente cortados por gritos de euforia. Havíamos finalmente encontrado o irmão! Mal me acostumei com a insolidez daquele encontro e a euforia deu lugar ao desespero. Maninho não tinha ido buscar comida. Eles nem eram irmãos. Mas com certeza eram iguais, dois vira-latas, duas sombras, dois amigos, um era a riqueza do outro. Se de fato tinham a mesma idade, o cachorro já era um idoso canino. Talvez por isso tenha se afastado: para morrer sozinho e poupar o irmão. A essa altura o garoto já não tinha chão, estava petrificado pelo sofrimento. Nem se deu conta de que foi carregado pelos assistentes sociais para dentro de uma Kombi da prefeitura. Não tentaram tirar o cachorrinho de seus braços, sabiam que seria impossível. Rapidamente a Kombi sumiu chuva adentro. Sequer tenho a mínima ideia de quanto tempo fiquei ali vislumbrando o nada. Já era madrugada quando percebi que estava faminto, molhado e… renovado.

Esperei o sol acordado. Aquele garoto perdeu um irmão, mas ganharia um nome tanto quanto eu ganhei um motivo…

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

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