Um conto bobo

Carecia de encontrar uma boa história. Os cobres já estavam no bolso e Seo Deodato no cangote. O jornal não podia mais esperar. Seu espaço estava bem marcado e caso a história não brotasse, uma foto dele iria aparecer por lá. Garboso, como só ele podia ser. Já imaginava os amigos do botequim fazendo troça. Aquilo não ia prestar.

Escorregou pela cadeira e caiu na rua. Olhava em volta, com olhos de caçador. Onde estaria sua presa? Por onde se esgueirava sua história? Passou por uns molecotes maltrapilhos e já lhes inventou uma sina. Não, de histórias tristes a mulher de Seo Deodato não gostava. Observou um casal enamorado. Tão jovenzinhos, tão suspirantes. Já imaginou bobiças e isso corava por demais as doces leitoras. Se dependesse dos outros, nunca que essa história apareceria.

O calor, o desespero, o avançado da hora. Tudo o fazia transpirar. Precisava voltar para a redação, mas não sabia como explicar a Seo Deodato que história não havia. No caminho, percebeu uma leréia na porta do café da praça. Seu faro aguçado o fez se aproximar. Ah! Mas não era nada. Era só o bobo Dinho sendo chacoteado mais uma vez.

Como de costume, pediam que Dinho se aproximasse e escolhesse entre uma moeda de 1 real e uma cédula de 10 reais. Ele sempre ficava com a moeda. Como gratificação pelas risadas, ganhava a moeda. E respondia:

– Cada um oferece o que tem.

Ninguém sabia onde Dinho morava ou de onde vinha. De repente aparecia, de repente sumia. Não tinha família. Não tinha casa. Boatos não faltavam, ou ele era filho de um incesto, ou tinha enlouquecido de tanto estudar, ou sofreu um acidente, ou caiu do berço quando criança… ninguém sabia a história real.

Era essa a história que há tanto procurava… quem era o bobo?

Dinho mal colocou a moeda no bolso e saiu em retirada. Parecia ter lembrado de um compromisso urgente. Se afastando do centro da cidade, entrou num armazém e tirou algumas moedas do bolso, quantia exata para comprar uma vara de bambu, um carretel de linha de pesca e meia dúzia de pequenos anzóis. Saiu do armazém como num rabo de foguete. Continuou andando rumo ao depósito de lixo da cidade. O lar de ratos, urubus e alguns rejeitados pela sociedade. Todos viviam do lixo. Dinho mal chegou e foi cercado aos gritos de:

– Agora sou eu! Essa é minha! Eu quero! Dá cá!

Escolheu alguém e juntos, deixaram os outros. Pegaram uma estradinha de terra que, alguns quilômetros depois, acabaria num ribeirão. Mesmo de longe, percebia-se que Dinho estava pacientemente orientando seu companheiro. Amarrou a linha na vara, depois no anzol. Em seguido, andou em volta e escolheu um local para começar a cavar, com as mãos mesmo, naquela terra encharcada. Separou algumas minhocas, que seriam iscadas e lançadas no ribeirão. Não demorou um minuto, a vara envergou-se, mais que depressa Dinho fisgou o primeiro lambari da pescaria. Chamou a atenção de seu ouvinte como se mostrasse a maneira correta de retirar o anzol da boca do peixinho. Entregou a vara e foi embora…

Seo Deodato olhou a folha incrédulo. Ou aquela era a melhor história que lhe chegara às mãos ou a pior. Olhou para o relógio. Não podia se dar ao luxo de decidir. Ou era aquilo no jornal ou a foto do moço que, parado, esperava uma resposta.

– Leve isso agora mesmo para a prensa. E seja o que nosso bom Deus quiser.

No dia seguinte, não se falava em outra coisa pela cidade. Aqueles que não conheciam o tal do Dinho, passaram a querer conhecê-lo. Aqueles que conheciam, procuravam uma oportunidade de perguntar ao jornalista se aquela história era real ou se era apenas uma lorota de mais um dos tantos metidos a escritor que infestavam a cidade.

O certo é que Dinho agora fazia parte do imaginário de todos que, ansiosos, esperavam pelas histórias que ainda viriam. Sim, porque já era certo, para os leitores do semanário, que real ou não, os caminhos do bobo deveriam estampar outras tantas páginas a partir dali.

(Rodrigo  Duarte e Renata Cabral)

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