Ladrãozinho

O contraste entre as roupas, muito maiores do que ele, e a sua miudeza impressionava. Causava até certa compaixão nos passantes, especialmente quando ele inclinava a cabeça de menino e fixava os olhos na sua presa. Só que aquela fragilidade era devidamente premeditada. Apesar dos poucos anos, tinha toda sorte de experiência no mundo da malandragem. Menino criado pela rua, repetia para os seus pares, não era menino. Era homem em corpo de criança.

Escolhia o ponto de acordo com a leseira do dia. Se muita, ficava logo ali perto do cinema onde as vítimas, ainda distraídas com aquilo que viram na tela grande e com toda a animação do programa, demoravam a descobrir o que realmente lhes acontecia. Se pouca, ia pra perto do bonde, onde a fuga era mais arriscada mas o gosto de aventura fazia valer a pena.

O truque era o de sempre. Fazia-se de coitadinho até atrair a total compaixão dos bocós, como chamava suas vítimas. Ficava ali, parado, como o menino abandonado que realmente era. Com a diferença da ingenuidade que impingia aos próprios olhos, sabe-se lá Deus como. E ganhando a confiança, ia contando uma história longa, dolorosa que, não raro, colhia lágrimas de seus ouvintes. Quando todos estavam envolvidos o suficiente, vinha o ápice de sua atuação: o pedido de um abraço. Era tudo o que precisava, repetia. Era tudo o que queria. Claro que nem todos atendiam ao pedido. A esses, simplesmente xingava e dava uma cusparada. Mas àqueles de bom coração que atendiam a seu pedido de menino, dava um gostoso abraço. E estava feito. Como um verdadeiro gatuno, roubava tudo o que tinham nos bolsos e na carteira. Desabraçava e se despedia, lentamente, agradecendo a gentileza. E, quando os bocós se davam conta, ele já estava longe, se gabando de sua esperteza.

Só que naquele dia o de sempre não aconteceu. Estava à porta do cinema quando aquela senhora surgiu em seu campo de visão. Pelo casaco pesado que usava, imaginou o quanto teria na bolsinha de mão. Calculou que muito provavelmente a semana estaria garantida. E se pôs no caminho entre ela e o carro que, parado, já a esperava. O chofer tentou afastá-lo, mas ela não permitiu. Estava no papo a bocó, pensou consigo mesmo. E foi logo desfiando toda a sua ladainha. Até chorou. Mas quando ia pedindo o abraço, foi surpreendido pelo convite que ela lhe fez: que jantassem juntos em sua casa.

Confuso, ficou sem saber o que responder. E ela, percebendo sua hesitação, apontou para o interior do carro. Sem muita saída, resolveu acompanhá-la. Afinal, melhor do que roubar os objetos de uma bolsa era poder roubar os de uma casa inteira.

Logo na entrada do palacete, sentiu que tirara a sorte grande. Que semana que nada. O mês inteiro estava garantido. E, pela maneira como o tratava, a bocó estava mesmo no papo.

Na sala de jantar, eram tantos os garfos, as facas, os copos, as taças sobre a mesa, que se admirou daquela gente conseguir comer e beber naquilo tudo. Percebendo a confusão do menino, a senhora mandou que retirassem os excessos, deixando apenas um prato, um jogo de talheres e um copo.

Nunca tinha comido tanto e tão bem em sua vida. Tudo bem que não passava dos doze anos, mas nesse tempo em que se entendia por gente, nunca tinha tido um banquete como aquele. Nem quando seu Manoel, para pagar uma promessa que fizera a Nossa Senhora de Fátima, lhe deixara comer tudo o que quisera na padaria.

Apesar da barriga cheia e de certo apreço que começara a sentir por aquela senhora, não se esqueceu do real motivo de ter aceitado o convite. Observou em volta, deu uma bela olhada naquilo que conseguiria carregar. Fixou-se nos objetos mais brilhantes porque esses sim teriam valor. E agora era arquitetar um plano de como faria aquilo.

Teve os pensamentos interrompidos pela mulher, que parecia adivinhar o que estava se passando. Apontando para cada um dos objetos em volta da grande sala, falou-lhe o valor de todos eles, se vendesse no antiquário ou no penhor. Ainda disse por quanto tinha comprado cada coisa e a diferença que fazia quando se comprava e se vendia. Sorrindo, ainda apontou quais achava que ele deveria levar. Apesar de, ressaltar, aqueles serem realmente dos quais ela mais gostava.

A bocó não era tão bocó assim, afinal. Ao perceber que gostava mais dela por isso, balançou a cabeça no intuito de espantar os bons sentimentos. Precisava se garantir. Essa era a lei. Essa era a sua vida. Não tinha tempo para essas bobagens de gostar de alguém. Rapidamente se pôs a falar que não era nada daquilo, que daquele jeito ela o ofendia. Que ele estava olhando pra tudo porque era um menino sem ninguém, que nunca tinha visto nada daquilo na vida. E quando ia desfiar sua ladainha de sempre, ela o interrompeu. Não precisava de fingimento. Ela sabia muito bem o que ele queria. Um ladrãozinho que enganava as almas de bom coração.

Um ladrãozinho. A expressão saída assim, pausadamente, da boca de tão distinta senhora, o feriu como nunca antes. Claro que já o haviam chamado de ladrão, de pivete, de molecote dos diabos, de malandro, de trambiqueiro, mas nunca daquela forma. Nunca daquele jeito. Por mais estranho que parecesse, havia algo diferente na voz dela. Não era ódio, não era medo.

Tão absorto estava em seus pensamentos que não percebeu a aproximação dela que, postada à sua frente, lhe fez uma proposta: se ele saísse dali aquela noite sem levar nenhum dos objetos, com certeza em pouco tempo teria muito mais do que aquilo tudo. Só que a escolha era dele: ou ia embora com tudo o que quisesse, ou ia embora de mãos abanando. Mas, a partir de então, voltaria todas as noites naquela mesma hora e, em pouco tempo, seria um dos homens mais ricos da cidade.

Não estava acostumado com tratativas tão diretas, principalmente vindas de uma dama. Como uma negociante nata, ela colocou todas as cartas na mesa e o encurralou de tal forma que não tinha senão duas opções. Era carregar o que pudesse e nunca mais voltar, ou dar o dia por perdido e, quem sabe, mais na frente ganhar algum. Apesar de não saber exatamente o que ela lhe entregaria, mas talvez valesse a pena. E, caso não valesse, teria sempre a chance de levar embora todos aqueles objetos quando quisesse. Afinal de contas, era só uma senhora contra um homem em corpo de criança.

O que o menino não percebera era que fora completamente fisgado. Justo ele, o malandro, enredado por uma bocó. Decidiu-se não pelo ganho maior que pensou que faria. Mas pela companhia. Por vê-la outras vezes. Por ter, nem que por parte da noite, a atenção de alguém como ela.

Ao se despedirem, ela o abraçou. E pela primeira vez, retribuiu sem pensar nos bolsos ou na bolsa. Sem pensar no ganho. Mas ela, esperta como se mostrara durante toda a noite, fez com que estendesse a mão. E, colocando um relógio bem no meio dela, disse-lhe sorrindo:

– Era tudo o que tinha na minha bolsa hoje. Fique pra você.

A atitude não o espantou mais do que o beijo estalado que recebeu, em seguida, na testa. E saiu pela rua assobiando. Mal podia esperar por amanhã e pelo jantar que iriam ter.

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