A carta de Nanim

Nanim, meu Nanim,

Pra começo de conversa, peço desculpas pela assombração que se põe a ler essas linhas bem à sua frente. Infelizmente não achei portador melhor ou de mais confiança. Apesar de ela haver jurado nunca mais cruzar o seu caminho, convenci-a de que, em nome de meu falecido pai, ela me devia um último favor. Já que não para de falar que ele era um homem tão abençoado…

Assim, não se apegue à carranca assustadora de Imaculada. Nem se incomode se ela proceder à leitura em pé, à porta de sua casa. Sim, porque tenho certeza de que, refeito do susto de vê-la e de saber que ela traz notícias minhas, você deve tê-la convidado a entrar e tomar assento. Deve ter convidado até para tomar um gole do café que acabara de fazer só pra você, enquanto se refariam, os dois, do susto. Mas ela, teimosa como uma mula, recusou a tudo. E disse ainda que leria rapidamente a carta que tinha em mãos em pé mesmo e, após a leitura, voltaria pelo mesmo caminho que veio sem esperar resposta. Porque ela não era obrigada a virar alcoviteira de demônio depois de velha, Deus o livre!

Não leve nada disso em conta, Nanim. Apesar de todo mau jeito, essa velha encruada tem coração, um bom coração. Não gastemos mais lápis e papel com ela, por que o que gastei até aqui já está de bom tamanho. Simbora falar do que é bom, nós dois.

Logo que soubemos da morte de nosso pai, mais que depressa minhas irmãs e eu começamos a arrumar as malas para irmos embora pra sempre. Nós éramos prisioneiras dentro de casa. Meu único acalento era te ver, mesmo que distante. Sonhar com a vida a seu lado. Sonhar com nossos meninos e meninas. Sonhar com nossa casinha rodeada de rosas, com o quintal cheio de pés-de-fruta. Sonhos que sempre eram interrompidos pelos desmandos de meu pai. O sofrimento, meu e de minhas irmãs, era tão grande que mal a notícia de sua morte chegou, já queríamos sair. Queríamos viver. Queríamos respirar. Queríamos existir. Como Januária, minha irmã mais velha, já tinha um plano matutado há muito tempo, decidimos seguir seus passos.

Uns meses atrás um circo pediu pouso nas terras de Seu Miliano, você deve se lembrar disso. Todo mundo lembra. Foi o maior alvoroço, todos comentavam. Para nossa sorte, nesse mesmo dia meu pai saiu à procura de um sujeito que conversou demais. Nessas idas era comum que nunca mais se ouvisse falar do tagarela e que meu pai demorasse uns dois dias, pelo menos, para voltar. Aproveitamos e fomos ver como era esse povo de circo. Ficamos de longe vendo o movimento, mas Januária não se conteve e chegou mais perto, encantada com o barulho, com as cores e com as pessoas. Enquanto ela se esgueirava pelos trieiros buscando uma visão mais privilegiada daquela leréia, sem que fosse descoberta, como fumaça, surge um homem bem à sua frente. Ele era muito alto, muito magro e com um chápeu muito comprido na cabeça, depois descobrimos que ele era muito mágico também. Ficamos desesperadas e corremos de volta pra casa. Enquanto estávamos ajoelhadas em grãos de feijão cru rezando os quatro terços do rosário, Januária entra com os olhos brilhando. Queria por tudo ir embora com o circo. E viver de mágica.

Ainda estávamos envolvidas nas histórias e promessas de Januária, quando meu pai repentinamente chegou. Só vimos o cutelo ainda sujo de sangue quando ele passou para o quarto. Nesse momento, o silêncio era absoluto em casa. Nenhum som se ouvia quando ele ali estava. Acho que se meu pai não chegasse naquela hora, todas teríamos fugido no mesmo dia. Desde então, Januária começou a traquinar uma forma de reencontrar seu mágico. Quando ouvimos o primeiro boato de que ele tinha morrido nas mãos de um caboclo mirrado, fizemos as malas mais que depressa. Não pude te esperar. Fiquei com medo de que fosse só mais um boato como vários outros que já tínhamos ouvido e que alguns dias depois se mostraram infundados com o regresso de meu pai a casa.

Na correria, não tive tempo de nada a não ser arrumar minhas coisas e colocar o pé no mundo. Pensei em deixar recado… quem daria? Pensei em deixar bilhete… quem entregaria? Mas não havia tempo a perder e nem sabíamos se o circo ainda estava à nossa espera. Não pense você, Nanim, que a fuga foi fácil pra mim. Chorei o caminho inteiro, até o circo. Depois, já dentro do caminhão velho, chorei ainda mais. Num teve palhaço que fizesse graça o suficiente pra tirar de mim um único sorriso. Me derramei em lágrimas até o dia em que, não sei como, Januária descobriu que foi você o tal que acabou com o nosso tormento. A partir daquele momento, por mais que ainda me doesse não estar a seu lado, sempre que me lembrava de seu olhar na cerca lá de casa, um sorriso me surgia, Nanim. Sorria muito, porque o meu amor me libertou. Já não consigo viver sem você. Não paro de pensar em você, não paro de pensar em nós.

Agora, você deve estar se perguntando o que eu fiz durante esse tempo todo. Por que, depois de ter certeza que meu pai tinha morrido de verdade, eu não voltei pros seus braços? Por que eu num deixei o pessoal do circo pra trás e simplesmente num corri de volta pra você? É simples, Nanim, porque eu quis proteger o nosso amor de uma maldição. A minha maldição…

– Pera, mas qui mardição? Ixplica esse trem direitu, sô! Qui conversa sem pé nem cabeça!

O sertanejo acorda num sobressalto que quase o atira da cama. Suado e ofegante, mal conseguiu pronunciar aquelas palavras. Não mais que de repente, se deu conta de que não sabia ler e de que não havia no mundo quem o fizesse por ele. Percebeu que estava sozinho em seu rancho. Viu que não havia carta alguma. Mas o sorriso matreiro de canto de boca foi inevitável.

– Uai, si eu sonhei cocê, Bina, di certo tem motivo. Si num tivesse causa num tinha sonhado. I comu us trem qui eu sonho tudo aconteci, é mió eu fazê um cochão maiózim, qui essi meu num cabe nóis dois. Qui eu tava enamarado por ocê num é novidadi. Mas sonhá cocê apaixonada neu, é bão por dimais!

Esfregou o sapeca-negrinho no rosto para enxugar um pouco do suor e voltou a se deitar na cama de palha seca. Calmamente se ajeitou em seu rústico leito, desejando que o sonho com Setembrina continuasse. Sabia ele que quanto mais sonhasse com sua flor de laranjeira, mais próximo seria o reencontro.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

***

Pra saber como essa história começou, leia Nanim

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