O palhaço

No meio de um dia atribulado, tudo o que você deseja é sombra e água fresca. Mas tudo o que você vê à sua frente é um imenso deserto, completamente sem vida. A boca parece sentir o que está por vir, mantendo-se seca o tempo inteiro. O coração, sobressaltado, o mantém alerta. E você conta os segundos desejando que aquele dia acabe.

O trabalho se arrasta. Pilhas e pilhas de papel juntam-se em cima de sua mesa. Ao olhar pro lado, você percebe que não é o único desbravador de dunas do ambiente. Um de seus colegas transpira. O outro, com os olhos esbugalhados, parece estar em meio a um verdadeiro transe. O ar pesa. Seu corpo pesa. E o pior é que ainda faltam longas horas para o final desse dia.

Até que um email muda tudo. Um email bobo, estilo corrente, funciona como uma verdadeira lufada de ar fresco em meio àquele processo de desertificação. Num primeiro momento, um riso de canto de boca surge. Depois, um sorriso de verdade. Por fim, uma gargalhada invade a sala.

Seus colegas, sem entender direito o que está acontecendo, olham assustados pra você. E você, aproveitando a plateia que se forma, resolve assumir o papel que melhor lhe cabe ali: o de palhaço. Faz troça com o ambiente, com o topete do colega. Curte com o trabalho acumulado, com a carranca do chefe. E o que antes era um deserto, não mais que de repente, se transforma num verdadeiro circo.

Os engravatados viram crianças e pegam no pé uns dos outros. Aquela colega, sempre fechada, se mostra uma excelente contadora de piadas. Até o chefe entra na dança, retirando a gravata e participando da algazarra. O circo, finalmente, está montado.

Saindo do trabalho, você decide continuar com o sorriso no rosto. Sorri para a recepcionista, sorri para o manobrista. Sorri no trânsito, sorri pro guarda. Sorri para o porteiro. Sorri para você mesmo. E segue soltando sorrisos por todos os lados.

Mesmo sem saber, você faz a alegria das pessoas por quem passa. Gente que não sorria há dias, gente que não ganhava um sorriso há um bom tempo. Gente que, muito provavelmente, já tinha até mesmo esquecido do quanto era gostoso sorrir. Numa virada inesperada, você, o desbravador do deserto, se transforma no palhaço da vez. E gosta muito de tudo isso.

(18 de janeiro, dia internacional do riso. Imagem: We heart it)

 

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