A outra face

Fechados os botões do terno, ele simplesmente se levantou e foi embora, deixando sobre a mesa duzentos reais para pagar a conta. Atônita, ela acompanhou a cena sem acreditar no que seus olhos viam. O primeiro pensamento que lhe veio à mente foi o mais idiota possível: como faria para voltar para casa? Depois, caindo em si, perguntou-se: que casa?

Esperou o garçom contabilizar a conta e trazer o troco. Pronto, já tinha o dinheiro do táxi. Mas pra onde iria? Pra casa, ora essa! Mas pra que casa se, alguns segundos atrás, ele simplesmente lhe avisara que todas as suas coisas seriam enviadas para o local que ela escolhesse?

Tentou se acalmar. Não seria de bom tom uma mulher como ela chorando na porta de um restaurante. Humilhação, repetiu para si, tem limite. E a sua cota estava além do aceitável naquele dia.

Resoluta, caminhou lentamente até a saída. Envolta em seus pensamentos continuou, ignorando o mundo. Não respondeu se desejava um táxi, não disse qual era seu carro. Não esboçou qualquer palavra. Estava tão muda quanto cega ao caminhar sem destino, fitando o vazio. Quase uma hora depois, seu salto se quebra. E num rompante de lucidez, ela se dá conta de que não tem a menor ideia de onde está. Nunca estivera ali antes. Nada lhe era familiar. Num amálgama de medo e desespero, lembra-se do trágico jantar de há pouco. Tudo é sem sentido.

Não há muito que fazer a não ser seguir, descalça, até um local amigável, até o plano, até a luz. O sofrimento é tanto que a dor ganhou ressignificância. Se os pensamentos não conspiram a favor, o destino assim o faz. Num canto escuro, na calçada suja, um homem agoniza. Parece vestir o que um dia foi um fraque, agora irreconhecível, rasgado e sujo de sangue. Ela se aproxima, instintivamente, tentando ajudar. Um homem grisalho, pequeno e frágil tenta respirar ofegante com o nariz desfigurado, praticamente irreconhecível. Ela limpa seu rosto o quanto é possível, tentando fazê-lo falar. Ele desfalece em seus braços. Como uma mãe, ela o acolhe protetora, busca o celular e pede ajuda.

Não consegue passar muitas informações além daquelas que estão diante dela: um homem, aparentando cerca de 50 anos, talvez um pouco menos, agoniza em uma esquina. Aperta os olhos tentando enxergar, em meio à escuridão, o nome da rua. Rua 15, repete para a moça que a aguarda do outro lado da linha. Não, não sabe dizer o nome dele nem tampouco o que realmente aconteceu. Sim, ele está machucado. Sim, está sangrando. Sim, está desacordado. Será que teria como parar de perguntar e simplesmente mandar o socorro? Agradece e desliga o celular.

Colocando o aparelho no chão, ajeita o desconhecido, delicadamente, em seu colo. Por mais desfigurado que ele esteja, não consegue se horrorizar com a cena. De alguma forma aquele estranho lhe atrai. Não há qualquer razão aparente, nem motivo que justifique, mas não consegue tirar os olhos dele. Em meio ao sangue e apesar do nariz tão machucado, consegue ver os traços do que um dia deve ter sido um belo rosto. Sem perceber, toca-lhe os olhos, a boca, afaga-lhe os cabelos.

Como por reflexo, ele abre os olhos. E ficam ali, os dois, encarando-se mutuamente. Aqueles quinze minutos pareciam eternos, palavra alguma foi dita, apenas se olhavam, até serem interrompidos pela ambulância que finalmente chegara. Enquanto o homem era atendido, ela não conseguia soltar sua mão. O contato físico era tão necessário quanto o ar que ela respirava. Com o corpo imobilizado, o rosto limpo e preso a uma maca, ele é colocado rapidamente dentro do veículo. E ela é acomodada ao lado do enfermo, como se fossem próximos. O silêncio prevalece. Ambos parecem não ouvir as perguntas dos para-médicos.

Minutos depois, a caminho do hospital, ele perde os sentidos. As várias tentativas de reanimação não tem sucesso. Ele sai da ambulância para a unidade de terapia intensiva. Ela não consegue abandonar o desconhecido.

Não consegue responder às perguntas dos médicos. Nome, endereço, telefone, plano de saúde, o que realmente aconteceu? Nada! A única coisa que conseguiu dizer foi um sim, quando perguntada se conhecia a vítima. Sim? Questionou-se. Desde quando? Desde o momento em que, há poucas horas atrás, perdera aquilo que conhecia como vida e saíra andando, a esmo, por aí. Respirou fundo. Precisava decidir como prosseguiria a partir daquele momento.

Vendo o médico que os atendera na chegada, como por impulso, seguiu-o questionando sobre o estado do seu amigo. Agarrara-se à oportunidade que a vida lhe dera e assumira aquele papel, o de amiga. Talvez, era tudo que ela precisasse: um amigo. Em meio a seus pensamentos só ouviu a última palavra que o médico disse… faleceu! Não percebeu o que mais foi dito, muito menos para onde o doutor foi. Tampouco importava. Procurou um lugar para se sentar, enquanto tentava compreender o por que de tantos infortúnios. O olhar do homem não lhe saía da mente. O calor que sentiu ao segurá-lo em seus braços. Já nem se lembrava do que acontecera no restaurante.

De repente, tudo se encaixa. Aquele homem frágil, de olhar intenso, acabara de lhe mostrar que uma vida inteira, às vezes, vale menos do que poucos minutos de solidariedade. Ela já não sofria. Parecia ter encontrado o prumo. Não precisava da casa. Não precisava de dinheiro. Não precisava de bens. Só precisava de si mesma, de seu coração, de sua compaixão. Saiu do hospital abdicando seu passado e nascendo novamente. Renovada. Forte. Destemida. Decidida. Só precisava localizar uma cabine telefônica para, na lista, encontrar a instituição mais próxima que precisasse de sua determinação em ajudar quem preciso fosse.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral. Imagem: We heart it)

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