Guardados

Junto tudo e coloco na sacola.
Por tudo leiam-se sentimentos, memórias, pequenos prazeres.
Meus tesouros todos ali, mal-acomodados. Simplesmente jogados.

Com a sacola em mãos, sigo o caminho já traçado.
Não há escapatória.
Se quiser protegê-los, terei que deles me desfazer.
Se quiser guardá-los, terei que em algum lugar enterrá-los.

Sigo um pouco mais e ninguém encontro.
Não há vida, não há verde.
Apenas um caminho triste para um momento também triste.
Apenas pequenas pedras para um incômodo momento.

A sacola não pesa.
Parece até mesmo adivinhar.
Não dá qualquer trabalho tentando convencer-me de que o melhor é com ela ficar.
Sua leveza estranhamente incomoda.
Devia pesar, penso!
Devia me atrapalhar!

Sou forte e decidida, repito.
Sigo o caminho com passos firmes.
Não é hora de olhar pra trás.
Não há tempo para arrependimento.

No lugar marcado, delicadamente coloco a sacola no chão.
Abro-a mais uma vez.
Espio seu conteúdo.
Afago minhas lembranças.
Delicio-me com os pequenos prazeres.
Nino os sentimentos.
E quando a ternura parece querer fazer-me desistir, coloco um ponto final.
É hora de terminar tudo aquilo e simplesmente partir.

Cavo um buraco com minhas próprias mãos.
Fundo, profundo.
Pouso a sacola no seu fim.
Sobre ela, deixo cair a terra.
Enterrando meus tesouros.

Terminada minha missão, sigo de volta pra casa.
Não sem medo, não sem hesitação.
Mas com a certeza de que ali estarão protegidos.
Mas com a certeza de que estarão guardados.
Com a certeza, enfim, de tê-los resguardado de mim.

(Imagem: We heart it)

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