Nanim

– Pra modi essa prosa cumeçá, acho mió mi apresentá. Me chamo Zé Cipriano, com sua graça (ajeita o encardido chapéu de palha na cabeça esboçando um cumprimento). Indesdi menino me chamam Nanim os lá de casa. Virei moço, virei homi, mas nunca ‘desvirei’ Nanim. Se bem qui isso num é nome, nem apelido, pra mim é quais uma sina qui tenho que carregá. O engraçado é que o causo que agora eu vou contá jamais se sucederia se Nanim não se pusesse a me acompanhá.

O matuto se ajeita num tronco de madeira aparado rusticamente num arremedo de cadeira. Cruza as pernas, apoiando o tronco nos cotovelos que se acomodam em seu colo, numa contorção permitida apenas aos sertanejos natos. Habilmente prepara o pito. Numa mão, um pedaço de palha, seca, lisa, cortada, dobrada e presa entre os dedos deformados pela enxada. Noutra, o fumo ainda em corda, prestes a ser cuidadosamente raspado pelo afiado Corneta. Em poucos minutos, o pitu já enrolado é sutilmente acomodado embaixo de um bigode ralo e base, que pouco esconde os lábios calejados pela vida. Com o mesmo movimento em que o pedaço de fumo é guardado no bolso da camisa puída, surge uma binga que inflama o cigarro, deixando um leve cheiro de querosene no ar, logo sufocado pelo forte cheiro de tabaco.

– Num tinha idade de barba, tamanho de carça, nem muitas carnes, miúdo que sempre fui, quando fui trabaiá pro finado Miliano (tamanho Zé Cipriano nunca teve, tanto que antes fora Ciprianim, depois Ciprianiquim, abreviando em Naniquim, findando carinhosamente em Nanim). Naquele tempo nóis num tinha hora, só dia e noite. Trabaiava quando tinha sol e drumia quando escuricia (acende novamente o cigarro que se apagara). Do tantu qui o finado Miliano era um homi bão, um tar de Abençuadu, seu agregadu, era mar. O bicho era tão bravo qui inté parecia vaca parida.

Nunca se soube o verdadeiro nome do Abençoado, ou mesmo se havia um. Os mais antigos diziam até que ele tinha feito um trato, não se sabe com quem ou com o quê. O fato era que ninguém se atrevia a contrariá-lo. Abençoado parecia ter cinquenta anos há cinquenta anos. O rosto envelhecido ostentava um dorso forte e firme, bastante intimidador.

– E du tantu qui u Abençuadu era mar, suas fias eram garbosas… as nove. Eu gostava mais de oiá a Setembrina, a caçula du tar. Êta homi bão de fazê fia (dá uma lenta baforada no pitu, como quem revê a cena na memória).  Eu nun consigu lembra como era a mãe dessas minina…. (coça a cabeça de cabelo ralo). Duma coisa num isqueçu de jeitu ninhum. Ondi Abençuadu ia, seu cutelo ia. Inté parecia grudado nele. Eram quaisqui pedaçu um do otro. Onde um tava, tava o otro tumem. Onde um ia, ia o otro tumem, causanu arvoroço e metenu medo por onde quer qui passassem, espantandu quarquer um que se metesse a besta e desse uma espiada mais atrevida nas fias do homi. Só qui pareci qui Setembrina me infeitiçô ou coisa paricida. Pra mim, num tinha Abençuadu, num tinha cutelo, num tinha nada nu mundu que fizesse meu zói sair de cima daquele bichim chei de formosura, minha frozinha de laranjeira. Adonde ela isse, adonde ela passassi, eu ispiava di longi, garrado de amor naquele rabu de saia. Craro que um dia issu tinha di caí nos zuvido du amardiçoado. E lá foi ele procuranu um jeito de dispachá minha arma cum aquele cutelo da miséra.

Um sorriso de canto de boca surge em meio a pele castigada do sertanejo. Após uma longa baforada, o sorriso completo brota no rosto. E os olhos, naturalmente pequenos, tornam-se dois riscos em meio àquele mundaréu de lembranças entrelaçadas.

– Nus tempu do meu avô, se ocê tivesse em pirigo bastava fecha o zói e rezar um Pai-nosso. Se desse conta de terminá a reza, um anjo tava ali pra ajudá. Se a reza num cabasse, ou isquecesse um pedaço, era porque o cão já tinha muntado no seu cangote. Intão… num pasto seco, no meio dum triero, avistei di longi o cutelo lumianu no sol quente. Eu istrimici dum jeitu que mar vi o tar Abençuadu. Mais que dipressa, cumecei a rezá o Pai-nosso. Rezei intero e assuntei que o Abençuadu num tinha nem apressado o passo. Divia tá querenu me aterrorizá, andanu divagá daquele jeito. Paricia inté que num tinha mi visto. Di certo o anjo me iscondeu ditras dele pra modi eu pensá numa forma de iscapá dali. Quando me apercebi do ocorrido, já estava a meio parmo do candidato. Risorvi encará o cabra. E que cabra feio… a cara era toda inrugada e os braçu era forte que nem um marruco. De resto num vi nada, fiquei empedrado com os zói sem cor daquele demoin. Inté parece que ele só me reconheceu di perto, porque di repente, sacou a foice pra me cortar o pescoçu. Inda bem que Deus me fez Nanim e a lavrada passou no chaper, que virô dois. Num mi guentei em pé e espatifei no chão… as perna disobedeceu. Dispois, num sei o que si passô, só sei que o Abençuadu avançô o passo como se num tivesse me vendo, trupicô e também caiu. Fiquei quietim nu meu canto, que nem sapo que viu cobra. Paricia que tinha passadu uma enternidade e o Abençuadu num levantô. Rezei mais um Pai-nosso, istufei o peito e me ergui do mei das perna daquele caboclo. Daí assuntei a prosa, o tar caiu imcima do cutelo que lhe cortô o peito qui neim mantêga. Dei uma boa oiada em vorta, ranquei o cutelo de dentro do finado e tirei a cabeça fora.

– Mar cheguei na cidade com aquele trofer na mão, qui começô a juntar genti intorno de mim. Uns curioso, otros mardoso e otros tantus assombrados cum minha proeza. I quem disse qui me deixaru falar? Já foru me puxanu pra dentro do bar do Véi Ináciu, colocanu uma marvada no meu copo e danu uns tapinha nas minhas costas. Duma hora protra, virei u matador do Abençoadu. O tar que agora era donu do cutelo amardiçuadu. O tar qui agora tinha si vingadu. Nu mei daquele mundarer di genti, eu num tirava Setembrina das ideia. Agora qui o pai dela tinha passadu dessa pra otra mior (ou pior nus casu dele), nóis ia podê vivê o nosso amor qui nem dois passarins sorto. I quanto mais eu pensava na diaba, mais gastura me dava. Até qui bati na mesa i dissi qui ia simbora qui num era homi di ficar me gabanu das minhas coragis.

O matuto, que até aquele momento conseguira se segurar, solta uma gargalhada seguida de outra. E como não se contém, chega a deixar o cigarro cair no chão.

– Ispie só. Eu, um homi das coragis! O pió é qui com aquela cabeça numa mão i o cutelo na otra, quem num ia criditá? Inté eu! I me puis de pé e sigui meu rumo, inu direto pra Setembrina. Só qui como oceis tudo deve di sabê, nutícia boa corre mais que nutícia ruim nessas bandas de cá. Chega antes de nois tudo. Já tava na portêra du ranchu da danada quando avistu a beata Imaculada, uma sinhora mei isquisita qui ajudava a cuidá das fia do Abençuadu. Num pricisei nem perguntá o que tava se sucedenu pra ela tar tão afobada. A muie num calava a matraca, paricia inté o “homi da cobra”. Primeiru me xinganu de tudo que é nomi, tinha uns até que nunca tinha iscutado na vida. Depois, ficô elogianu o mardito Abençuadu, inté parecia que o homi prestava. A língua do povo é dessi jeitu…. u sujeitu podi di sê fiote de chocadeira, dispois qui morre tem gente que ainda fala que o finadu era gente de bem. Deus que me perdoi e guarde… mas minha vontade era de arrancá a cabeça da beata Imaculada tumém. Véia injuada, sô! Só num fiz nada porque só Setembrina me interessava. Quando ispiculei da minha fror de laranjeira, a véia beata me arranca u chão. Dizenu ela, Setembrina tinha idu imbora junto cas irmã tudo. Tinha tudo fugido pelo mundo afora. Sairu vuanu feito passarim que iscapoli da arapuca. I foi assim qui si sucedeu. Nu dia em qui virei o homi mais corajosu das redondeza, virei o mais tristi tumém. Nu dia em que Abençuadu partiu prus quintu, Setembrina, meu amô, minha frô, partiu pra esse mundão de meu Deus. I eu discubri, dus jeitu mais tristi qui issu podi si sucedê, qui o marditu du cutelu era di tudo isso o curpadu. Mas essa é uma otra história, pra uma otra hora. Porque a di agora, oceis acaba de cunhecê. I simbora purque tá tarde i eu precisu di cumê.

Do mesmo jeito que se sentou, se levantou: paciençoso, calmo, sem pressa. Despediu-se e seguiu seu caminho, deixando para trás um rastro de fumo e curiosidade que, numa próxima oportunidade, seria com certeza ainda mais aguçada.

(Renata Cabral e Rodrigo Duarte)

3 pensamentos sobre “Nanim

  1. Pingback: A carta de Nanim | Inventário

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