Embaraço

É chegada a hora de cortar os laços.

Tesoura em mãos, pego um emaranhado.
Por onde começar?
Reflito. O que cortar? Do que me desvencilhar?

Mal percebo que já estou novamente enlaçada.
Completamente enredada.
A dúvida junta as pontas.
E vai fazendo novos nós.

Num ato heróico, levanto a tesoura.
Só que ela, até ela, está ligada a tantas linhas.
Presa a muitas, e estranhas, armadilhas.

A coragem, repentinamente, se liga ao medo.
E some, por entre os laços de aflição.
E eu, que antes era pura decisão, enredo-me novamente, nas entranhas da hesitação.

Cortar o que?
Desvencilhar-me de que?
Pego-me, completamente atada, tal qual múmia recém embalsamada.
Não há um só lugar sem nó.
Não há um só espaço sem fios, linhas ou laços.

Por estranho que pareça, em torno de mim aparecem pequenos traços.
Viram palavras, que viram frases, que viram textos, que viram histórias.
E vão dando nomes a cada laço, a cada nó.

Se não bastassem os simples emaranhados, agora sei como chamá-los.
Sei de onde vieram, de onde se originaram.
Sou uma múmia com manuscritos.
Sou uma múmia que carrega em si seus próprios papiros.

De repente um fio se reforça e cresce.
Vira um nó, cheio de histórias.
Um nó em forma de livro, tamanha as suas memórias.
O nome dele?
Esquecimento.

Encantada que fico com sua grandeza, enredo-me nele um pouco mais.
E quando menos percebo, já não sei onde estão as pontas.
Já não me recordo de um dia terem existido.
A tesoura, em algum lugar, já não faz qualquer sentido.
Esqueço, enfim.

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