Um conto seco

Nos últimos anos, aquela era a terceira de suas crias que a terra engolia. Já nem existia mais lágrimas. Já não tinha mais ladainha. O ritual era sempre o mesmo: embrulhar o pequeno num trapo velho, quando havia, levá-lo ao pé do morro, abrir uma cova. E com o pouco de força que ainda restava, voltar e continuar a vida.

Enquanto voltava para casa, olhava ao redor, a terra seca, pouco convidativa. Não adiantava plantar, que nada pegava. Não adiantava criar, que nenhum vingava. E a gente que ali vivia, com a terra se parecia: feia, castigada, maltratada. Gente seca. Pensou no menino. Mais um… Menos um… Menos uma boca para chorar. Menos uma boca para alimentar. O coração aperta. A respiração pára. Quem seria o próximo? Quem mais a terra levaria? Parou à porta da tapera em que morava. Hesitou em entrar. E se simplesmente se virasse, fosse embora, deixasse tudo para trás? Lembrou-se do marido que há anos não via. Que havia partido com juras de que um dia voltaria.

Perdeu o companheiro para a promessa sudestina do trabalho abundante, do tesouro mensal garantido. Certamente um Éden que não permitia o retorno daqueles que seduzidos se aventuraram por lá. Inúmeras famílias foram desfeitas. Curiosamente, só retornavam aqueles que não encontravam o eldorado, afinal, nem todos merecem o paraíso. Àqueles que obtiveram êxito restava direcionar as orações desesperadas e esperar que um dia se lembrassem da família, dos amigos, do caminho de casa. Mais ainda, que buscassem os seus.

Inerte, continuou congelada na entrada de casa. Nem o choro das oito crianças espalhadas pelo piso de terra batida e muito menos os chamados do estranho que se aproximava a despertavam. Só voltou à realidade quando o maltrapilho lhe tocou o ombro e as crianças se calaram de desespero.

– Maria, sou eu!

Ela mal reconheceu aquele que um dia fora seu companheiro. Por mais sofrida que fosse a aparência daquele povo, todos emanavam uma aura de guerreiros. Tão castigados quanto persistentes, dificilmente se entregavam às mazelas da vida. Mas aquele arremedo de homem nem lembrava o intrépido aventureiro que anos atrás saiu em busca das terras frias. Mais magro, mais velho, menos homem, menos vivo… ainda mais seco. O abraço que se seguiu, certamente, durou horas. Enquanto se amparavam mutuamente, ele falou sobre os tesouros que encontrou. O paraíso do lixo, do preconceito, da pobreza, da solidão, da humilhação. Descreveu como era aquele Éden contemporâneo com os céus ocos sem estrelas, com suas plantações de prédios, com seus campos de asfalto, com seus rios fétidos, com seus ares pútridos, da cidade dos outros.

Se desculpou por tudo que a família passou. E garantiu que voltou o mais rápido que pôde, assim que se deu conta daquele cenário. Infelizmente, aos pobres só lhes restam as forças do corpo e com essas poucas seguiu de volta o caminho de casa… caminhando.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

Fazendo acontecer

Se você tem um calendário sobre a mesa, dê uma rápida olhadinha nele. Se não tem, pegue uma agenda ou mesmo dê uma espiada no relógio do seu computador. Mas antes, prepare-se. Porque praticamente chegamos ao fim do primeiro mês de 2012. E isso, de certa forma, pode ser um tanto quanto assustador.

Mas antes que o susto tome conta de você, respire fundo. E pense: dos alvos/ projetos/sonhos que você estabeleceu para esse ano, quais estão em andamento? Quais já tiveram os primeiros passos dados? E quais precisam de uma injeção de motivação a partir de agora?

Para que o final de 2012 não seja composto apenas por um amontoado de projetos que nunca saíram do papel, é interessante que desde já você se empenhe em concretizá-los. E, mais do que isso, que desde agora você faça um acompanhamento de como anda a realização de cada um deles.

Uma maneira bacana de garantir que seus alvos não sejam apenas parte de uma listinha de empolgações pré-reveillon é colocar metas a curto, médio e longo prazo. Ou mesmo metas mês a mês. Por exemplo, se o projeto da vez é perder peso, estipule uma meta mensal (desde que seja real). Se o projeto é passar em um concurso, faça um cronograma de estudos (e cumpra a risca). Se o projeto é frequentar a academia, estabeleça quantas vezes por semana você deve aparecer por lá (e realmente vá!).

E pra que a motivação não morra na praia, uma ideia simples (e que muitas vezes funciona) é se presentear a cada meta atingida. Perdeu o peso estipulado para aquele mês? Uma blusa nova seria uma boa recompensa. Estudou aquilo que estipulou? Uma ida ao cinema cairia bem. E, claro, quando a meta for atingida totalmente, se dê ao direito de um big presente. Tenho uma amiga cujo notebook se chama 30kg por motivos óbvios: ela se presenteou com ele assim que eliminou os 30kg que tinha planejado.

Assim, pegue a sua listinha e dê uma bela examinada. No que você precisa se empenhar mais? No que já avançou? Lembre-se que, por enquanto, você tem 11 meses para fazer de 2012 um ano cheio de conquistas.

Ah! E não se esqueça: talvez, em alguns pontos, você precise mudar o foco ou mesmo a direção. A hora de fazer isso é agora. Reavalie seus sonhos, suas metas, suas estratégias. Reavalie, se preciso, suas motivações. E, caso perceba a necessidade, mude. Mudanças em projetos em estágio inicial são muito menos traumáticas do que aquelas realizadas nos que já estão em finalização.

2012 ainda tem 11 meses esperando por você. É hora de respirar fundo, reavaliar tudo e fazer acontecer.

Reverso

Leio e torno a ler
Releio e torno a (re)ler
Não me enxergo em uma linha
Não me vejo em um traço
Quem será ela que não?
Que fará ela senão eu?

Leio e torno a ler
Releio e torno a (re)ler
Me perco entre aqueles sentimentos
Me afogo em dores que não minhas
Que sente ela que não eu?
Que sofre ela que não eu?

Talvez seja ela o outro lado do espelho
O verso da folha
A música que toca ao contrário

Talvez seja ela a noite que chama o dia
A tempestade antes da bonança
O inverno que precede a primavera

Naquela linhas não me vejo
Naqueles traços não me enxergo
Só há ela, que não eu
Será ela, que não eu?

O máximo proveito

Não me lembro da última vez em que joguei fora algo que usei até a última gota. Algo que tenha que ter ido pro lixo por não ter mais qualquer condição de uso. Pensei nisso, hoje, ao tomar a decisão de jogar fora um sapato por estar gasto até não poder mais.

Ganhei o dito cujo no meu aniversário do ano passado, ou seja, há cerca de seis meses. Mas o usei tanto e de tal forma que o pobrezinho aparenta ter pelo menos uns cinco anos de existência.

Depois da decisão de levá-lo para o lixo (porque ele não permite sequer ser doado) fiquei pensando em quantas coisas eu simplesmente deixei de lado porque me cansei, me esqueci ou troquei por algo novo.

Um exemplo disso são minhas bolsas. Para você ter uma ideia do drama, um amigo do trabalho me perguntou esses dias: mas peraí, quantas bolsas você tem? E eu genericamente respondi: muitas. Depois da experiência com o sapato, foi inevitável pensar nas bolsas. E me espantar porque nunca joguei nenhuma fora por excesso de uso. Nunca tirei, de verdade, o máximo proveito de qualquer uma delas.

Em menor ou maior grau, também fiquei imaginando que existem áreas da minha vida em que nunca tirei o máximo proveito. Existem áreas em que nunca tive a experiência de dizer: ah, pronto! Daqui não tenho mais como ir porque avancei além do limite

Comecei a me perguntar se tenho tirado o máximo proveito da minha família, dos meus amigos, de minha capacidade. Claro que não pretendo jogar nenhum deles fora (algumas vezes até penso, mas depois desisto! Brincadeirinha…), mas quero um dia olhar pra trás e dizer: curti até a última gota cada um dos meus amigos. Me esforcei ao máximo e empenhei minha capacidade toda em meus projetos. Vivi os melhores momentos com a minha família.

Na sociedade dos descartáveis, acabamos por levar a filosofia da descartabilidade para tudo em nossas vidas. Enjoei? Troco por um novo. Cansei? Jogo a toalha e desisto. Tá complicado? Deixo de lado e sigo meu caminho.

Tirar o máximo proveito é nadar contra a corrente. E, como tal, exige um esforço extra. Não render-se àquela bolsa linda requer força de vontade. Não desistir de um sonho, idem. Não abrir mão de um relacionamento também. Mas acredite: vale a pena.

Quando nos empenhamos ao máximo no quer que seja, nós saímos fortalecidos. Ampliamos nossos limites, estendemos nossa capacidade. Tirar o máximo proveito de tudo é, no final das contas, um exercício que nos torna melhores.

Assim, dê uma olhada dentro e fora de você. Do que você precisa tirar o máximo proveito? De um relacionamento? Do seu trabalho? De seu tempo? De suas ideias? Depois de escrever esse texto eu decidi, entre outras coisas, tirar o máximo proveito de minhas bolsas. Além da economia, o exercício vai me ajudar numa questão fundamental: o que eu quero eu realmente preciso? Espero ter, no final do ano, boas histórias pra contar nesse sentido.

E aí, simbora tirar o máximo proveito da vida como um todo? 

Ladrãozinho

O contraste entre as roupas, muito maiores do que ele, e a sua miudeza impressionava. Causava até certa compaixão nos passantes, especialmente quando ele inclinava a cabeça de menino e fixava os olhos na sua presa. Só que aquela fragilidade era devidamente premeditada. Apesar dos poucos anos, tinha toda sorte de experiência no mundo da malandragem. Menino criado pela rua, repetia para os seus pares, não era menino. Era homem em corpo de criança.

Escolhia o ponto de acordo com a leseira do dia. Se muita, ficava logo ali perto do cinema onde as vítimas, ainda distraídas com aquilo que viram na tela grande e com toda a animação do programa, demoravam a descobrir o que realmente lhes acontecia. Se pouca, ia pra perto do bonde, onde a fuga era mais arriscada mas o gosto de aventura fazia valer a pena.

O truque era o de sempre. Fazia-se de coitadinho até atrair a total compaixão dos bocós, como chamava suas vítimas. Ficava ali, parado, como o menino abandonado que realmente era. Com a diferença da ingenuidade que impingia aos próprios olhos, sabe-se lá Deus como. E ganhando a confiança, ia contando uma história longa, dolorosa que, não raro, colhia lágrimas de seus ouvintes. Quando todos estavam envolvidos o suficiente, vinha o ápice de sua atuação: o pedido de um abraço. Era tudo o que precisava, repetia. Era tudo o que queria. Claro que nem todos atendiam ao pedido. A esses, simplesmente xingava e dava uma cusparada. Mas àqueles de bom coração que atendiam a seu pedido de menino, dava um gostoso abraço. E estava feito. Como um verdadeiro gatuno, roubava tudo o que tinham nos bolsos e na carteira. Desabraçava e se despedia, lentamente, agradecendo a gentileza. E, quando os bocós se davam conta, ele já estava longe, se gabando de sua esperteza.

Só que naquele dia o de sempre não aconteceu. Estava à porta do cinema quando aquela senhora surgiu em seu campo de visão. Pelo casaco pesado que usava, imaginou o quanto teria na bolsinha de mão. Calculou que muito provavelmente a semana estaria garantida. E se pôs no caminho entre ela e o carro que, parado, já a esperava. O chofer tentou afastá-lo, mas ela não permitiu. Estava no papo a bocó, pensou consigo mesmo. E foi logo desfiando toda a sua ladainha. Até chorou. Mas quando ia pedindo o abraço, foi surpreendido pelo convite que ela lhe fez: que jantassem juntos em sua casa.

Confuso, ficou sem saber o que responder. E ela, percebendo sua hesitação, apontou para o interior do carro. Sem muita saída, resolveu acompanhá-la. Afinal, melhor do que roubar os objetos de uma bolsa era poder roubar os de uma casa inteira.

Logo na entrada do palacete, sentiu que tirara a sorte grande. Que semana que nada. O mês inteiro estava garantido. E, pela maneira como o tratava, a bocó estava mesmo no papo.

Na sala de jantar, eram tantos os garfos, as facas, os copos, as taças sobre a mesa, que se admirou daquela gente conseguir comer e beber naquilo tudo. Percebendo a confusão do menino, a senhora mandou que retirassem os excessos, deixando apenas um prato, um jogo de talheres e um copo.

Nunca tinha comido tanto e tão bem em sua vida. Tudo bem que não passava dos doze anos, mas nesse tempo em que se entendia por gente, nunca tinha tido um banquete como aquele. Nem quando seu Manoel, para pagar uma promessa que fizera a Nossa Senhora de Fátima, lhe deixara comer tudo o que quisera na padaria.

Apesar da barriga cheia e de certo apreço que começara a sentir por aquela senhora, não se esqueceu do real motivo de ter aceitado o convite. Observou em volta, deu uma bela olhada naquilo que conseguiria carregar. Fixou-se nos objetos mais brilhantes porque esses sim teriam valor. E agora era arquitetar um plano de como faria aquilo.

Teve os pensamentos interrompidos pela mulher, que parecia adivinhar o que estava se passando. Apontando para cada um dos objetos em volta da grande sala, falou-lhe o valor de todos eles, se vendesse no antiquário ou no penhor. Ainda disse por quanto tinha comprado cada coisa e a diferença que fazia quando se comprava e se vendia. Sorrindo, ainda apontou quais achava que ele deveria levar. Apesar de, ressaltar, aqueles serem realmente dos quais ela mais gostava.

A bocó não era tão bocó assim, afinal. Ao perceber que gostava mais dela por isso, balançou a cabeça no intuito de espantar os bons sentimentos. Precisava se garantir. Essa era a lei. Essa era a sua vida. Não tinha tempo para essas bobagens de gostar de alguém. Rapidamente se pôs a falar que não era nada daquilo, que daquele jeito ela o ofendia. Que ele estava olhando pra tudo porque era um menino sem ninguém, que nunca tinha visto nada daquilo na vida. E quando ia desfiar sua ladainha de sempre, ela o interrompeu. Não precisava de fingimento. Ela sabia muito bem o que ele queria. Um ladrãozinho que enganava as almas de bom coração.

Um ladrãozinho. A expressão saída assim, pausadamente, da boca de tão distinta senhora, o feriu como nunca antes. Claro que já o haviam chamado de ladrão, de pivete, de molecote dos diabos, de malandro, de trambiqueiro, mas nunca daquela forma. Nunca daquele jeito. Por mais estranho que parecesse, havia algo diferente na voz dela. Não era ódio, não era medo.

Tão absorto estava em seus pensamentos que não percebeu a aproximação dela que, postada à sua frente, lhe fez uma proposta: se ele saísse dali aquela noite sem levar nenhum dos objetos, com certeza em pouco tempo teria muito mais do que aquilo tudo. Só que a escolha era dele: ou ia embora com tudo o que quisesse, ou ia embora de mãos abanando. Mas, a partir de então, voltaria todas as noites naquela mesma hora e, em pouco tempo, seria um dos homens mais ricos da cidade.

Não estava acostumado com tratativas tão diretas, principalmente vindas de uma dama. Como uma negociante nata, ela colocou todas as cartas na mesa e o encurralou de tal forma que não tinha senão duas opções. Era carregar o que pudesse e nunca mais voltar, ou dar o dia por perdido e, quem sabe, mais na frente ganhar algum. Apesar de não saber exatamente o que ela lhe entregaria, mas talvez valesse a pena. E, caso não valesse, teria sempre a chance de levar embora todos aqueles objetos quando quisesse. Afinal de contas, era só uma senhora contra um homem em corpo de criança.

O que o menino não percebera era que fora completamente fisgado. Justo ele, o malandro, enredado por uma bocó. Decidiu-se não pelo ganho maior que pensou que faria. Mas pela companhia. Por vê-la outras vezes. Por ter, nem que por parte da noite, a atenção de alguém como ela.

Ao se despedirem, ela o abraçou. E pela primeira vez, retribuiu sem pensar nos bolsos ou na bolsa. Sem pensar no ganho. Mas ela, esperta como se mostrara durante toda a noite, fez com que estendesse a mão. E, colocando um relógio bem no meio dela, disse-lhe sorrindo:

– Era tudo o que tinha na minha bolsa hoje. Fique pra você.

A atitude não o espantou mais do que o beijo estalado que recebeu, em seguida, na testa. E saiu pela rua assobiando. Mal podia esperar por amanhã e pelo jantar que iriam ter.

A bailarina

Quando ela entra no picadeiro, todo o universo para. Os movimentos suaves, a delicadeza, fazem dela um ímã que atrai todos os olhares. E todos ficam ali, encantados por sua leveza, hipnotizados por sua beleza.

A saia de tule rodada, com pequenos brilhos incrustados, cria em torno dela uma aura de magia. Enquanto ela gira, a sensação que se tem é que pequenos vaga-lumes a acompanham, dançando em torno daquela que também os encanta.

As fitas que têm nas mãos são um espetáculo a parte. Escondem e mostram o rosto, de traços delicados e sorriso bem marcado. Giram em torno dela, fazendo com que um universo de cores a envolva.

A melodia que a embala lembra o som das caixinhas de música. Não há como não pensar nela, a bailarina, como a doce companheira do soladinho de chumbo. E o gosto de infância, a nostalgia daquele tempo que não volta mais, embala os presentes que seguem hipnotizados por aquela moça.

Cada movimento é acompanhado. Cada passo, bem marcado, é admirado. E, quando menos se espera, todos se sentem exatamente como ela: leves. Parecem deixar de lado aquilo que os pesava, que os obrigava a se arrastar. Parecem desatar-se daquilo que os prendia e simplesmente sentem-se convidados a entrar na dança.

Ao invés de uma única bailarina, tem-se, de repente, um verdadeiro corpo de baile. Formado por homens, mulheres, jovens, velhos, crianças. Ninguém se preocupa se o passo está perfeito, se a roupa é adequada. O que todos querem, simplesmente, é deixar-se envolver pela música. Esquecendo tudo o que pesa, enchendo-se de leveza.

A carta de Nanim

Nanim, meu Nanim,

Pra começo de conversa, peço desculpas pela assombração que se põe a ler essas linhas bem à sua frente. Infelizmente não achei portador melhor ou de mais confiança. Apesar de ela haver jurado nunca mais cruzar o seu caminho, convenci-a de que, em nome de meu falecido pai, ela me devia um último favor. Já que não para de falar que ele era um homem tão abençoado…

Assim, não se apegue à carranca assustadora de Imaculada. Nem se incomode se ela proceder à leitura em pé, à porta de sua casa. Sim, porque tenho certeza de que, refeito do susto de vê-la e de saber que ela traz notícias minhas, você deve tê-la convidado a entrar e tomar assento. Deve ter convidado até para tomar um gole do café que acabara de fazer só pra você, enquanto se refariam, os dois, do susto. Mas ela, teimosa como uma mula, recusou a tudo. E disse ainda que leria rapidamente a carta que tinha em mãos em pé mesmo e, após a leitura, voltaria pelo mesmo caminho que veio sem esperar resposta. Porque ela não era obrigada a virar alcoviteira de demônio depois de velha, Deus o livre!

Não leve nada disso em conta, Nanim. Apesar de todo mau jeito, essa velha encruada tem coração, um bom coração. Não gastemos mais lápis e papel com ela, por que o que gastei até aqui já está de bom tamanho. Simbora falar do que é bom, nós dois.

Logo que soubemos da morte de nosso pai, mais que depressa minhas irmãs e eu começamos a arrumar as malas para irmos embora pra sempre. Nós éramos prisioneiras dentro de casa. Meu único acalento era te ver, mesmo que distante. Sonhar com a vida a seu lado. Sonhar com nossos meninos e meninas. Sonhar com nossa casinha rodeada de rosas, com o quintal cheio de pés-de-fruta. Sonhos que sempre eram interrompidos pelos desmandos de meu pai. O sofrimento, meu e de minhas irmãs, era tão grande que mal a notícia de sua morte chegou, já queríamos sair. Queríamos viver. Queríamos respirar. Queríamos existir. Como Januária, minha irmã mais velha, já tinha um plano matutado há muito tempo, decidimos seguir seus passos.

Uns meses atrás um circo pediu pouso nas terras de Seu Miliano, você deve se lembrar disso. Todo mundo lembra. Foi o maior alvoroço, todos comentavam. Para nossa sorte, nesse mesmo dia meu pai saiu à procura de um sujeito que conversou demais. Nessas idas era comum que nunca mais se ouvisse falar do tagarela e que meu pai demorasse uns dois dias, pelo menos, para voltar. Aproveitamos e fomos ver como era esse povo de circo. Ficamos de longe vendo o movimento, mas Januária não se conteve e chegou mais perto, encantada com o barulho, com as cores e com as pessoas. Enquanto ela se esgueirava pelos trieiros buscando uma visão mais privilegiada daquela leréia, sem que fosse descoberta, como fumaça, surge um homem bem à sua frente. Ele era muito alto, muito magro e com um chápeu muito comprido na cabeça, depois descobrimos que ele era muito mágico também. Ficamos desesperadas e corremos de volta pra casa. Enquanto estávamos ajoelhadas em grãos de feijão cru rezando os quatro terços do rosário, Januária entra com os olhos brilhando. Queria por tudo ir embora com o circo. E viver de mágica.

Ainda estávamos envolvidas nas histórias e promessas de Januária, quando meu pai repentinamente chegou. Só vimos o cutelo ainda sujo de sangue quando ele passou para o quarto. Nesse momento, o silêncio era absoluto em casa. Nenhum som se ouvia quando ele ali estava. Acho que se meu pai não chegasse naquela hora, todas teríamos fugido no mesmo dia. Desde então, Januária começou a traquinar uma forma de reencontrar seu mágico. Quando ouvimos o primeiro boato de que ele tinha morrido nas mãos de um caboclo mirrado, fizemos as malas mais que depressa. Não pude te esperar. Fiquei com medo de que fosse só mais um boato como vários outros que já tínhamos ouvido e que alguns dias depois se mostraram infundados com o regresso de meu pai a casa.

Na correria, não tive tempo de nada a não ser arrumar minhas coisas e colocar o pé no mundo. Pensei em deixar recado… quem daria? Pensei em deixar bilhete… quem entregaria? Mas não havia tempo a perder e nem sabíamos se o circo ainda estava à nossa espera. Não pense você, Nanim, que a fuga foi fácil pra mim. Chorei o caminho inteiro, até o circo. Depois, já dentro do caminhão velho, chorei ainda mais. Num teve palhaço que fizesse graça o suficiente pra tirar de mim um único sorriso. Me derramei em lágrimas até o dia em que, não sei como, Januária descobriu que foi você o tal que acabou com o nosso tormento. A partir daquele momento, por mais que ainda me doesse não estar a seu lado, sempre que me lembrava de seu olhar na cerca lá de casa, um sorriso me surgia, Nanim. Sorria muito, porque o meu amor me libertou. Já não consigo viver sem você. Não paro de pensar em você, não paro de pensar em nós.

Agora, você deve estar se perguntando o que eu fiz durante esse tempo todo. Por que, depois de ter certeza que meu pai tinha morrido de verdade, eu não voltei pros seus braços? Por que eu num deixei o pessoal do circo pra trás e simplesmente num corri de volta pra você? É simples, Nanim, porque eu quis proteger o nosso amor de uma maldição. A minha maldição…

– Pera, mas qui mardição? Ixplica esse trem direitu, sô! Qui conversa sem pé nem cabeça!

O sertanejo acorda num sobressalto que quase o atira da cama. Suado e ofegante, mal conseguiu pronunciar aquelas palavras. Não mais que de repente, se deu conta de que não sabia ler e de que não havia no mundo quem o fizesse por ele. Percebeu que estava sozinho em seu rancho. Viu que não havia carta alguma. Mas o sorriso matreiro de canto de boca foi inevitável.

– Uai, si eu sonhei cocê, Bina, di certo tem motivo. Si num tivesse causa num tinha sonhado. I comu us trem qui eu sonho tudo aconteci, é mió eu fazê um cochão maiózim, qui essi meu num cabe nóis dois. Qui eu tava enamarado por ocê num é novidadi. Mas sonhá cocê apaixonada neu, é bão por dimais!

Esfregou o sapeca-negrinho no rosto para enxugar um pouco do suor e voltou a se deitar na cama de palha seca. Calmamente se ajeitou em seu rústico leito, desejando que o sonho com Setembrina continuasse. Sabia ele que quanto mais sonhasse com sua flor de laranjeira, mais próximo seria o reencontro.

(Rodrigo Duarte e Renata Cabral)

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Pra saber como essa história começou, leia Nanim